Inscreva-se

Home Quadros Clinicos Dor de Cabeça Tensional
dez 18, 2019 9 min de leitura

A Cannabis Alivia a Dor de Cabeça Tensional?

author
por Philip Ghezelbash

Evidências científicas e também informais nos dizem que a cannabis pode constituir um tratamento eficaz para enxaquecas e cefaleias em salvas (dor de cabeça, rara, unilateral, geralmente localizada de um lado da cabeça), mas e quanto às dores de cabeça provocadas por tensão? 

A cannabis foi legalizada como remédio para aliviar a dor em tratamentos de cefaleia (dor de cabeça) em muitos países e Estados dos EUA. As pesquisas sobre a relação entre a planta e o cuidado das cefaleias tensionais, no entanto, são relativamente escassas. Até o momento, não há consenso na literatura científica se de fato a cannabis de uso medicinal constitui um tratamento eficaz para dores de cabeça provocadas por tensão. Apesar disso, pesquisas recentes mostraram resultados promissores do uso da planta no controle da dor provocada por diferentes quadros clínicos incluindo as cefaleias. A cannabis medicinal também pode ajudar a aliviar os sintomas da dor de cabeça tensional indiretamente, melhorando a qualidade do sono.

À medida que a legalização dos canabinoides se tornar mais comum em todo o mundo, provavelmente se realizarão mais pesquisas, o que ajudará a determinar a sua verdadeira eficácia.

Como a Cannabis Atua

O sistema endocanabinoide é um sistema biológico complexo de canabinoides e receptores. Os canabinoides são neurotransmissores sintetizados a partir de gorduras que se ligam aos receptores de canabinoides espalhados em todo o corpo, e estão presentes no sistema nervoso central dos vertebrados (incluindo no cérebro). O papel principal do sistema endocanabinoide é manter a homeostase do organismo, modulando funções cruciais como apetite, controle muscular, sono, humor e reação à dor. 

Derivados da planta da cannabis como o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC), denominados fitocanabinoides, interagem com os receptores CB1 e CB2 do sistema endocanabinoide. Quando esses receptores são ativados, os usuários sentem vários efeitos, sejam os psicoativos, sejam os terapêuticos.

Uma das drogas mais comuns atualmente para cefaleias tensionais são os analgésicos. A literatura científica estabeleceu que a sinalização através dos receptores CB1 e CB2 afeta os nociceptores (receptores da dor). Uma revisão sistemática e uma metanálise que examinaram os resultados de 43 ensaios clínicos randomizados e um total de 2.437 pacientes concluíram, com base nas evidências limitadas disponíveis, que a marijuana medicinal pode ser eficaz no tratamento da dor crônica, especialmente a neuropática. Uma vez que um dos usos médicos mais comuns da cannabis medicinal é no alívio da dor, parece plausível que esse efeito também seja capaz de aliviar as cefaleias tensionais.

A principal causa de dores de cabeça tensionais ainda não está completamente esclarecida, mas as prováveis incluem estresse, distúrbios do sono, problemas ligados à mandíbula, dor no pescoço e fadiga ocular. Um sintoma comum associado a cefaleias tensionais é a baixa qualidade do sono assim, a maconha medicinal também pode ajudar a aliviar estes sintomas indiretamente, melhorando a qualidade do sono.

Estudos Médicos Sobre as Cefaleias Tensionais e a Cannabis

A pesquisa sobre a cannabis e a dor de cabeça tensional ainda está em fase inicial. Faltam ensaios clínicos randomizados, principalmente devido ao status legal da planta, que limitou a pesquisa no passado. 

Apesar disso, existem outras pesquisas promissoras que dão uma visão sobre a possibilidade e o modo como a cannabis medicinal pode atuar nesses casos.

A planta é usada há séculos para tratar distúrbios de dor de cabeça como as enxaquecas. Entre o final dos anos 1800 e 1940, a cannabis medicinal era vista, na comunidade médica, como um remédio eficaz para dores de cabeça. No entanto, até o momento não houve nenhum ensaio clínico específico voltado para a maconha medicinal e as cefaleias tensionais. Há, no entanto, algumas pesquisas clínicas que analisam os efeitos da planta nas cefaleias em salvas e nas enxaquecas.

Um estudo se propôs a explorar os efeitos da cannabis na frequência mensal de enxaquecas. Recomendou-se aos participantes diagnosticados com o problema que usassem a maconha de forma profilática. Depois de acompanhar os pacientes por quatro anos, os pesquisadores descobriram que a frequência da enxaqueca diminuiu, em média, de 10,4 para 4,6 episódios por mês com o uso diário de marijuana medicinal. Metade dos pacientes relatou efeitos positivos (principalmente a prevenção dos sintomas da cefaleia e redução na frequência das enxaquecas), e 11,6% relataram efeitos negativos, como sonolência e dificuldades em controlar a hora e a intensidade da dosagem de cannabis.

Uma revisão abrangente dos canabinoides para enxaquecas e outras cefaleias concluiu que, em geral, a cannabis de uso medicinal pode ter um papel terapêutico nos distúrbios da dor crônica, incluindo cefaleias, tanto enxaquecas quanto as em salvas.

  • No estudo de uma série de casos, cinco casos de enxaqueca crônica foram tratados com sucesso com dronabinol ou cannabis de uso medicinal. Em um dos casos, a planta obteve melhores resultados do que o dronabinol.
  • O relatório de caso de um paciente com cefaleia refratária em salvas mostrou que a cannabis medicinal ou o dronabinol fumado no início da crise causou alívio imediato.
  • Uma série de casos observando três indivíduos com dores de cabeça crônicas mostrou que fumar cannabis proporcionou alívio comparável à ergotamina e aspirina.
  • O relatório de caso de um paciente com enxaqueca revelou que, após 18 anos de tratamento sem sucesso com medicamentos padrão, obteve-se alívio com o fumo de cannabis medicinal.

É importante observar que esses resultados são limitados a pesquisas baseadas em casos isolados, e não incluem grupos de controle. Devido à notoriedade dos benefícios terapêuticos da cannabis, o placebo também deve ser considerado. Embora essas séries de casos e relatórios sejam promissores, ainda são necessários ensaios clínicos randomizados.

Um estudo preliminar, duplo-cego, de controle ativo e randomizado de 2012 analisou os efeitos do THC nas cefaleias. Aos participantes que sentiam dores de cabeça por uso excessivo de medicamentos foram dadas doses orais diárias de nabilona ou de ibuprofeno. Ambos os medicamentos foram considerados eficazes. Curiosamente, os participantes relataram melhora em maiores quantidades e uma qualidade de vida geral melhor ao usar a forma sintética de THC. A nabilona demonstrou reduzir a intensidade da dor e também diminuiu a dependência às drogas. Embora nenhum dos medicamentos tenha tido um efeito significativo relativo à frequência da enxaqueca, isso foi atribuído pelos pesquisadores à duração relativamente curta do estudo. Esses resultados são promissores, mas ainda são necessários estudos em larga escala, especialmente com a substituição da nabilona pelo THC.

As mudanças nas estruturas cerebrais dos distúrbios do sono e das cefaleias tensionais são muito semelhantes. A pesquisa mostrou que a interrupção do sono é uma causa comum do disparo aumentado dos receptores de dor, o que pode aumentar os sintomas da dor de cabeça tensional. Um estudo publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine descobriu que 59% dos pacientes com cefaleia tensional afirmaram que dormir pouco agrava as dores de cabeça.

Um estudo randomizado de 2010, o qual observou 21 pessoas com dor neuropática crônica, constatou que os pacientes experimentaram “melhorias significativas” na qualidade do sono e na ansiedade após serem tratados com THC. Outros estudos mostram resultados menos promissores, com um estudo de 2008 demonstrando que cepas de THC reduzem o movimento rápido dos olhos (REM) durante o sono, e um estudo de 2015 mostrou que o uso regular de cannabis prejudica o sono. Se a planta pode ajudar a melhorar o sono, consequentemente poderá colaborar, indiretamente, para o alívio dos sintomas da dor de cabeça tensional.

À medida que as leis referentes ao uso medicinal da cannabis sejam aprimoradas, provavelmente serão realizadas pesquisas mais específicas sobre a relação entre a planta e esse quadro clínico. As indicações até o momento, embora limitadas, são promissoras.

Efeitos Colaterais

Em geral, a cannabis medicinal é bem tolerada pelos pacientes, especialmente em comparação com analgésicos como os opioides. 

Alguns dos efeitos colaterais da cannabis são tonturas, boca seca, problemas de concentração e sonolência. Outros, menos comuns, incluem falta de coordenação, paranoia e ansiedade. As pesquisas também mostram que o uso continuado leva ao aumento da tolerância em relação a esses efeitos colaterais menores. Sintomas de abstinência após a interrupção do uso de cannabis medicinal são possíveis, como apontado em um estudo segundo o qual 23% dos pacientes apresentaram dores de cabeça após cessarem o uso regular da planta. 

Não existem overdoses letais com cannabis e nenhuma morte jamais foi atribuída diretamente aos canabinoides. Efeitos colaterais mais sérios são possíveis em usuários de cannabis medicinal com maiores predisposições genéticas para desenvolver doenças mentais como a esquizofrenia. Problemas de desenvolvimento cognitivo também podem ser um efeito colateral pelo uso pesado de maconha medicinal durante a adolescência, devido ao desenvolvimento contínuo do cérebro nessa fase da vida.

Isenção de Responsabilidade

O conteúdo do site The Cannigma tem fins puramente informativos. Não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um médico profissional experiente com conhecimento em cannabis antes de iniciar um tratamento.

Deixe um comentário

Índice de A-Z