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set 22, 2019 11 min de leitura

A Cannabis Pode Ajudar no Glaucoma?

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por Gleb Oleinik
Revisão médica realizada por Roni Sharon, MD

Visão Geral

O uso de planta para o glaucoma tornou-se popular a partir de 1971, quando um estudo relatou que fumar cannabis reduz a pressão ocular. 

De fato, atualmente aceita-se o fato de que consumir cannabis reduz a pressão ocular durante várias horas. Mais importante: uma pesquisa recente destaca que o sistema endocanabinoide do corpo está envolvido na saúde ocular e, consequentemente, é possível chegar até ele por meio de canabinoides e outros compostos.

O Sistema Endocanabinoide

Descoberto pela primeira vez nos anos 1990, o sistema endocanabinoide é composto por uma rede de receptores, endocanabinoides e enzimas que controlam a síntese e a decomposição desses compostos.

Este sistema desempenha um papel crítico na saúde humana, ajudando nosso corpo a manter a homeostase, ou seja, um estado saudável de equilíbrio. Pesquisas mostram que o sistema endocanabinoide está envolvido em muitos processos importantes, como a função cognitiva, imunidade, dor, sono e até saúde ocular. 

Até agora, os pesquisadores identificaram dois principais receptores de canabinoides: CB1 e CB2. Enquanto o CB1 é abundante no sistema nervoso central, o CB2 é comum nas células imunológicas. Esses receptores respondem à anandamida e 2-AG, os dois endocanabinoides produzidos no interior de nossos corpos. Além disso, eles também interagem com fitocanabinoides, os canabinoides provenientes da planta da cannabis, como o THC e o CBD.

O Sistema Endocanabinoide e o Glaucoma

Todas as partes do sistema, incluindo receptores, endocanabinoides e enzimas, estão presentes no tecido ocular, sugerindo que elas desempenham um papel na função ocular saudável.

Mais importante: há evidências de que o glaucoma afeta a função do sistema endocanabinoide. Por exemplo, um estudo comparou os níveis de 2-AG, anandamida (AEA) e palmitoiletanolamina (PEA), um composto intimamente relacionado à anandamida, em olhos normais e glaucomatosos. 

Embora os níveis de AEA fossem semelhantes, os olhos enfermos apresentavam níveis mais baixos de 2-AG e PEA em uma parte do olho chamada corpo ciliar, que desempenha um papel importante no controle da pressão ocular. A PEA também era mais baixa na coroide, uma das camadas externas do olho.

Enquanto isso, um estudo feito em ratos com hipertensão ocular, uma doença que causa dano ocular semelhante ao glaucoma agudo em humanos, teve resultados ainda mais interessantes. Neste experimento, a hipertensão levou ao aumento dos níveis de FAAH (a sigla em inglês para hidrolase de amida de ácidos graxos), uma enzima que decompõe a anandamida, bem como a uma diminuição dos receptores CB1. 

E o mais importante: quando os pesquisadores deram aos ratos um composto que bloqueia a FAAH ou que se assemelha à anandamida, o dano retiniano foi reduzido. Isso sugere que o glaucoma pode reduzir os níveis de anandamida na retina e que tal redução contribui para o dano às células da retina.

Descobertas como essas levaram os pesquisadores a propor que “pode ser possível melhorar os resultados glaucomatosos através da modificação terapêutica do sistema endocanabinoide”.

Pesquisas mostram que o sistema endocanabinoide pode ser utilizado para ajudar no glaucoma de duas maneiras: reduzindo a pressão intraocular e garantindo neuroproteção.

Por exemplo, um estudo de 1996 mostrou que a aplicação de compostos tópicos semelhantes à anandamida nos olhos de coelhos resultou em uma redução significativa da pressão intraocular, confirmando que o sistema endocanabinoide regula esse processo. Da mesma forma, numerosos estudos mostraram que a cannabis e o THC produzem o mesmo efeito.

Além disso, estudos recentes relatam que o sistema endocanabinoide pode ajudar no glaucoma, protegendo as células neuronais de danos, um efeito conhecido como neuroproteção. 

A principal maneira pela qual o glaucoma leva à cegueira é causando a morte de um tipo específico de neurônio encontrado no olho: as células ganglionares da retina (CGR). Essas células podem continuar a serem perdidas mesmo quando as pessoas tomam medicamentos para baixar a pressão ocular.

Como se vê, o sistema endocanabinoide pode proteger esses neurônios dos danos que ocorrem devido ao glaucoma. Por exemplo, um estudo descobriu que elevar os níveis de anandamida, bloqueando a enzima FAAH, protegeu as CGRs dos ratos contra esse dano.

Consideradas em seu conjunto, as pesquisas atuais mostram que alterar o sistema endocanabinoide, aumentando os endo ou usando os fitocanabinoides, pode ser benéfico para quem sofre de glaucoma. Sendo assim, preparações medicinais de cannabis podem ser úteis para este mal.

Cannabis e Glaucoma

A primeira evidência de que a cannabis de uso medicinal pode ajudar a quem sofre de glaucoma surgiu em 1971, quando pesquisadores descobriram que fumar a planta resultava numa redução significativa da pressão intraocular.

Esse achado foi reproduzido de forma consistente por estudos de acompanhamento, usando cannabis para fumar ou THC de várias formas, incluindo injetado, tópico e inalado.

Quanto aos efeitos neuroprotetores da cannabis, a pesquisa atual se limita a estudos de cultura com animais e células. Por exemplo, um estudo examinou se o THC ou o CBD podiam evitar danos aos neurônios causados pelo glutamato, um composto que contribui para a sua morte no glaucoma. Os pesquisadores descobriram que ambos os canabinoides protegiam os neurônios.

Embora esses achados não sejam tão claros quanto aos efeitos da cannabis sobre a pressão ocular, existem evidências suficientes de que tanto os endo quanto os fitocanabinoides podem fornecer neuroproteção às células da retina danificadas pelo glaucoma.

No entanto, é importante observar que todas as evidências apontam para o THC como o principal canabinoide responsável pelos efeitos de redução da pressão obtido com a cannabis. Por outro lado, o CBD pode, na realidade, aumentar a pressão ocular.

Por exemplo, um estudo de 2006 descobriu que, embora a administração sublingual de THC tenha reduzido a pressão intraocular, o CBD não teve efeito ou causou aumento da pressão em doses mais altas. Similarmente, um estudo recente com ratos revelou que a aplicação tópica de CBD aumentava a pressão intraocular.

No entanto, isso não significa que o CBD deva ser totalmente desconsiderado, pois ainda assim apresenta efeitos neuroprotetores. De qualquer forma, isso dá mais suporte à prática de usar preparados a partir da planta inteira de cannabis, que combinam quantidades significativas de THC, CBD e de todos os outros compostos ativos nela encontrados.

Em suma, as evidências atuais da pesquisa sugerem que a cannabis de uso medicinal pode ser benéfica para quem sofre de glaucoma, não apenas por meio da redução da pressão ocular, mas também protegendo as células neuronais. No entanto, seu uso médico tem sido limitado devido a seus efeitos colaterais.

Efeitos Colaterais

Embora os pesquisadores médicos continuem otimistas em relação ao potencial da cannabis no controle do glaucoma, os oftalmologistas como um todo não apoiam seu uso devido aos seus efeitos adversos.

 

Mais notavelmente, sabe-se que a cannabis causa potencialmente efeitos psicoativos, como ansiedade, paranoia, falta de memória e euforia, conhecidos coletivamente como a sensação de “high” da planta. Além disso, a cannabis tem outros efeitos adversos, incluindo aumento da frequência cardíaca, palpitações e redução da pressão arterial. De modo crítico, a pressão arterial baixa pode diminuir o fluxo sanguíneo para o nervo óptico, contrariando os benefícios proporcionados pela redução da pressão ocular.

Esses efeitos colaterais são problemáticos porque os benefícios da cannabis para baixar a pressão duram apenas cerca de 3 a 4 horas. Como a pressão ocular no glaucoma deve ser controlada o tempo todo, isso significa que as pessoas que usam a planta teriam que continuamente lidar com a variação da pressão.

A importância desses efeitos colaterais foi destacada por um estudo em que nove pessoas com glaucoma tomaram cápsulas de THC ou fumaram cannabis. Todos os nove participantes escolheram descontinuar o tratamento após 1–9 meses.

Conclusão

As evidências atuais das pesquisas destacam que manipular o sistema endocanabinoide é uma forma promissora de tratar o glaucoma. Estudos mostram que podemos usar esse sistema não apenas para reduzir a pressão ocular, mas também para proporcionar neuroproteção.

Esse último achado é especialmente significativo porque algumas pessoas com glaucoma, mesmo após a redução da pressão ocular, continuam a sofrer perda de visão. Portanto, são necessários medicamentos para glaucoma que abordem a pressão ocular e os danos neuronais.

Embora a cannabis possa vir a se tornar esse medicamento, atualmente seu uso é limitado por sua ação de curta duração e efeitos colaterais significativos. Por esse motivo, os oftalmologistas não têm recomendado cannabis para glaucoma.

No entanto, isso não a descarta completamente. Atualmente, os pesquisadores estão testando uma ampla variedade de compostos que afetam o sistema endocanabinoide, incluindo fitocanabinoides, canabinoides sintéticos e compostos que aumentam a atividade dos endocanabinoides. 

É bem possível que possa ser desenvolvido, no futuro, um medicamento à base de canabinoides com ação de maior duração e menos efeitos colaterais.

Isenção de Responsabilidade

O conteúdo do site The Cannigma tem fins puramente informativos. Não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um médico profissional experiente com conhecimento em cannabis antes de iniciar um tratamento.

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