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DemĂȘncia

A Cannabis Pode Ajudar a Tratar a DemĂȘncia?

Ă­ndice

VisĂŁo Geral

A cannabis tem sido usada para tratar doenças hĂĄ milhares de anos. Mudanças legislativas e descobertas cientĂ­ficas recentes levaram a um renascimento da pesquisa mĂ©dica sobre os compostos ativos da planta e seus efeitos no sistema nervoso humano. Pesquisas mostraram que pacientes com demĂȘncia podem se beneficiar de um curto tratamento com canabinoides, os quais podem atĂ© impedir a progressĂŁo da doença de Alzheimer.

O Sistema Endocanabinoide

Os sintomas neuropsiquiĂĄtricos da demĂȘncia sĂŁo difĂ­ceis de tratar, especialmente a agitação. Eles sĂŁo uma das principais causas de deterioração da qualidade de vida, hospitalizaçÔes constantes e aumento da morbidade e mortalidade, alĂ©m de dificultar o relacionamento com familiares e cuidadores. Estudos na Ășltima dĂ©cada sugerem que tanto os canabinoides sintĂ©ticos quanto os naturais (fitocanabinoides) podem aliviar esses sintomas persistentes. Atualmente, vĂĄrios estudos clĂ­nicos amplos estĂŁo em andamento e podem fornecer evidĂȘncias mais conclusivas.

A maioria das pessoas com demĂȘncia acaba por experimentar sintomas neuropsiquiĂĄtricos (SNP) como agitação, agressividade, apatia, distĂșrbios de locomoção e alimentação no curso da doença. Esses sintomas tĂȘm grandes impactos sobre a doença e a mortalidade de pessoas com demĂȘncia, muitas vezes exigindo medicação adicional, hospitalização e atendimento institucionalizado. E isso, por sua vez, afeta a saĂșde de seus cuidadores. O tratamento atual do NPS inclui intervençÔes comportamentais nĂŁo farmacolĂłgicas e tratamento farmacolĂłgico adicional com medicamentos indicados para outras finalidades, como antipsicĂłticos de segunda geração (tambĂ©m conhecidos como “atĂ­picos”), antidepressivos e antiepilĂ©ticos. Infelizmente, essas drogas nĂŁo sĂŁo muito eficazes nestes casos e tambĂ©m podem provocar efeitos colaterais incapacitantes. Existe um amplo consenso entre clĂ­nicos, pacientes, cuidadores e formuladores de polĂ­ticas da necessidade premente de opçÔes terapĂȘuticas alternativas para esses sintomas debilitantes.

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O sistema endocanabinoide (SE) humano apareceu recentemente no radar para o tratamento dos sintomas de demĂȘncia. O SE possui trĂȘs elementos principais:

  1. Endocanabinoides, que são moléculas canabinoides produzidas dentro do corpo.
  2. Receptores localizados na superfície das células humanas, que se ligam aos canabinoides e transmitem sinais intercelulares. Os receptores mais estudados são os CB1, nas células cerebrais, e os CB2, no sistema imunológico e nas células sanguíneas.
  3. Enzimas, as quais decompÔem os canabinoides.

Tanto os fitocanabinoides quanto os sintĂ©ticos podem se ligar aos receptores do SE, alterando a comunicação neural via neurotransmissores como acetilcolina, GABA (ĂĄcido gama-aminobutĂ­rico), dopamina e serotonina. A atividade interrompida do neurotransmissor acetilcolina no cĂ©rebro, por exemplo, prejudica diretamente processos como aprendizado, memĂłria, sono reparador e outras funçÔes cognitivas. Realmente, muitos dos sintomas de demĂȘncia estĂŁo relacionados Ă  interrupção atividade da acetilcolina (neuromuscular), e esse neurotransmissor Ă© o principal alvo dos atuais medicamentos para demĂȘncia. Decididamente, o SEC tem demonstrado a capacidade de modular a comunicação neural associada Ă  acetilcolina (bem como a outros neurotransmissores importantes), um entendimento que levou os cientistas a avaliar se a manipulação do sistema endocanabinoide pode ser usada para aliviar os sintomas de demĂȘncia ou atĂ© mesmo retardar a progressĂŁo da doença. Ensaios clĂ­nicos mostram que os canabinoides sĂŁo seguros para pessoas com demĂȘncia.

Ensaios clĂ­nicos randomizados e controlados fornecem a evidĂȘncia mais confiĂĄvel sobre a segurança e eficĂĄcia dos tratamentos mĂ©dicos. Nos Ășltimos 20 anos, apenas sete desses estudos avaliaram a eficĂĄcia dos canabinoides para o SNP nos vĂĄrios tipos de demĂȘncia, e a maioria deles apresentou importantes falhas metodolĂłgicas. Conduzir testes clĂ­nicos com cannabis tem sido extremamente desafiador devido ao status legal histĂłrico da planta.  

Em 1997, um grupo dos EUA relatou que pacientes com doença de Alzheimer que receberam Dronabinol por via oral, duas vezes por dia durante seis semanas, experimentaram aumento do apetite e redução do comportamento perturbado, conforme avaliado pelos cuidadores (pontuação CMAI). Resultados similares foram posteriormente relatados em dois pacientes com Alzheimer aos quais foi ministrada uma dose similar durante apenas duas semanas. 

VĂĄrios estudos mais aprofundados foram realizados na Holanda em 2015 e 2017 (um outro estudo, de 2015, pode ser encontrado aqui), nos quais pacientes com diferentes tipos de demĂȘncia receberam THC sintĂ©tico duas ou trĂȘs vezes ao dia por perĂ­odos de quatro dias a 12 semanas. Embora esses estudos tenham sugerido que o tratamento Ă© seguro em termos de efeitos colaterais indesejados, nĂŁo houve melhorias clinicamente significativas em uma ampla gama de sintomas de demĂȘncia.

Ainda assim, de acordo com um artigo cientĂ­fico recente sobre o uso de canabinoides nos sintomas de demĂȘncia, os resultados preliminares sĂŁo encorajadores. Os estudos envolveram pessoas com diferentes tipos de demĂȘncia e essa amostragem “heterogĂȘnea” pode mascarar efeitos clĂ­nicos significativos. AlĂ©m disso, o uso de doses relativamente pequenas de THC e a coadministração de outros medicamentos tornam ainda mais difĂ­cil chegar a conclusĂ”es sĂłlidas.

Em maio de 2019, um grupo canadense tentou resolver algumas dessas deficiĂȘncias. Este estudo, bem controlado e estatisticamente consistente, incluiu 40 participantes, todos com diagnĂłstico da doença de Alzheimer. Ele revelou que uma dose semelhante de THC sintĂ©tico era eficaz no tratamento da agitação. Quarenta e cinco por cento dos pacientes deste estudo, no entanto, experimentaram sedação, mas nĂŁo em nĂ­veis que exigissem a interrupção do tratamento.

DemĂȘncia e Cannabis

A tese de que os canabinoides podem aliviar os sintomas neuropsiquiĂĄtricos de demĂȘncia parece intuitivamente correta, pois a cannabis Ă© amplamente usada para relaxamento e redução da ansiedade devido a seus efeitos farmacolĂłgicos e neurobiolĂłgicos no cĂ©rebro humano. Mas alguns cientistas imaginam que os canabinoides tambĂ©m podem ser Ășteis como moduladores da prĂłpria neurodegeneração, que Ă© a principal neuropatologia da demĂȘncia. 

Pesquisadores veem o potencial do canabidiol (CBD) na prevenção da progressĂŁo da doença de Alzheimer. O CBD tem toxicidade muito baixa, Ă© rapidamente distribuĂ­do e pode passar atravĂ©s da barreira hematoencefĂĄlica. VĂĄrios estudos oferecem evidĂȘncias de que esse fitocanabinoide realmente possui vĂĄrias propriedades, incluindo efeitos de neuroproteção, anti-inflamatĂłrios e antioxidantes, todos estes fatores importantes para retardar a neurodegeneração.

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Infelizmente, atĂ© o momento nĂŁo houve nenhum ensaio clĂ­nico avaliando o potencial terapĂȘutico do CBD na demĂȘncia. Mas ensaios em laboratĂłrios de animais e culturas de cĂ©lulas mostraram que as combinaçÔes de CBD e THC/CBD podem reduzir a produção e o acĂșmulo de proteĂ­nas prejudiciais e placas (AÎČ e tau), que causam neurodegeneração na doença de Alzheimer. Em vĂĄrios estudos, um curto curso de tratamento com CBD em camundongos revelou a redução da destruição de neurĂŽnios no hipocampo (uma ĂĄrea do cĂ©rebro envolvida na formação da memĂłria) e a promoção da formação de novas cĂ©lulas. AlĂ©m de proteger os neurĂŽnios, o CBD tambĂ©m apresentou efeitos terapĂȘuticos comportamentais impedindo o aparecimento da deficiĂȘncia de reconhecimento social em camundongos adultos de laboratĂłrio com doenças semelhantes ao Alzheimer. Como o jornal Behavioural Pharmacology resumiu de forma otimista, “o CBD poderia muito bem proporcionar alĂ­vio sintomĂĄtico e/ou impedir a progressĂŁo da doença em pacientes com Alzheimer”.

No Reino Unido, um grande ensaio clĂ­nico em pacientes com demĂȘncia teve inĂ­cio no final de 2019, e espera-se que forneça evidĂȘncias mais consistentes sobre a eficĂĄcia do canabinoide no tratamento sintomĂĄtico da doença. O estudo seria o primeiro a usar um spray bucal Ă  base de cannabis contendo THC e CBD (Nabiximols). Atualmente, outro grande ensaio clĂ­nico em Israel estĂĄ em andamento e deverĂĄ terminar em meados de 2020. Este estudo seria o primeiro a empregar um Ăłleo de cannabis de uso medicinal de engenharia local (Avidekel), cujo principal ingrediente Ă© o CBD.

Os ensaios clĂ­nicos randomizados sĂŁo rigorosamente regulamentados e fornecem um alto nĂ­vel de evidĂȘncia, mas tambĂ©m consomem tempo e tĂȘm fome de recursos. Por esse motivo, pesquisadores e mĂ©dicos tambĂ©m usam estudos de coorte e relatos de casos para tentar avaliar a utilidade de uma terapia. 

VĂĄrios desses estudos apontam mais claramente para os canabinoides como tratamentos eficazes para o SNP na demĂȘncia. Em 2014, uma corte de 40 pacientes com diferentes tipos de demĂȘncia mostrou-se menos agitada e agressiva, e mais descansada apĂłs uma dose mais alta de um anĂĄlogo de THC daquele usado em ensaios clĂ­nicos. Dois anos depois, uma equipe israelense relatou resultados semelhantes num grupo de 11 pacientes com Alzheimer, que receberam Ăłleo de cannabis medicinal (contendo uma dose semelhante de THC e quantidades variĂĄveis de canabidiol) em doses semelhantes por 28 dias. Em 2019, um hospital em Genebra forneceu evidĂȘncias de que uma dose mais alta de extrato de cannabis por via oral com THC e CBD, administrada por dois meses com um aumento gradual da dose, foi bem tolerada e melhorou bastante as questĂ”es comportamentais, a rigidez muscular e os cuidados diĂĄrios em 10 pacientes do sexo feminino com demĂȘncia. Finalmente, vĂĄrios casos anedĂłticos de relatĂłrios de pacientes tratados com doses variĂĄveis de anĂĄlogos do THC relataram reduçÔes nos sintomas comportamentais e psicolĂłgicos da demĂȘncia.

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