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set 22, 2019 10 min de leitura

A Cannabis Pode Ajudar a Tratar a Demência?

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por Dr. Aviad Hadar
Revisão científica realizada por Roni Sharon, MD

Visão Geral

A cannabis tem sido usada para tratar doenças há milhares de anos. Mudanças legislativas e descobertas científicas recentes levaram a um renascimento da pesquisa médica sobre os compostos ativos da planta e seus efeitos no sistema nervoso humano. Pesquisas mostraram que pacientes com demência podem se beneficiar de um curto tratamento com canabinoides, os quais podem até impedir a progressão da doença de Alzheimer.

O Sistema Endocanabinoide

Os sintomas neuropsiquiátricos da demência são difíceis de tratar, especialmente a agitação. Eles são uma das principais causas de deterioração da qualidade de vida, hospitalizações constantes e aumento da morbidade e mortalidade, além de dificultar o relacionamento com familiares e cuidadores. Estudos na última década sugerem que tanto os canabinoides sintéticos quanto os naturais (fitocanabinoides) podem aliviar esses sintomas persistentes. Atualmente, vários estudos clínicos amplos estão em andamento e podem fornecer evidências mais conclusivas.

A maioria das pessoas com demência acaba por experimentar sintomas neuropsiquiátricos (SNP) como agitação, agressividade, apatia, distúrbios de locomoção e alimentação no curso da doença. Esses sintomas têm grandes impactos sobre a doença e a mortalidade de pessoas com demência, muitas vezes exigindo medicação adicional, hospitalização e atendimento institucionalizado. E isso, por sua vez, afeta a saúde de seus cuidadores. O tratamento atual do NPS inclui intervenções comportamentais não farmacológicas e tratamento farmacológico adicional com medicamentos indicados para outras finalidades, como antipsicóticos de segunda geração (também conhecidos como “atípicos”), antidepressivos e antiepiléticos. Infelizmente, essas drogas não são muito eficazes nestes casos e também podem provocar efeitos colaterais incapacitantes. Existe um amplo consenso entre clínicos, pacientes, cuidadores e formuladores de políticas da necessidade premente de opções terapêuticas alternativas para esses sintomas debilitantes.

O sistema endocanabinoide (SE) humano apareceu recentemente no radar para o tratamento dos sintomas de demência. O SE possui três elementos principais:

  1. Endocanabinoides, que são moléculas canabinoides produzidas dentro do corpo.
  2. Receptores localizados na superfície das células humanas, que se ligam aos canabinoides e transmitem sinais intercelulares. Os receptores mais estudados são os CB1, nas células cerebrais, e os CB2, no sistema imunológico e nas células sanguíneas.
  3. Enzimas, as quais decompõem os canabinoides.

Tanto os fitocanabinoides quanto os sintéticos podem se ligar aos receptores do SE, alterando a comunicação neural via neurotransmissores como acetilcolina, GABA (ácido gama-aminobutírico), dopamina e serotonina. A atividade interrompida do neurotransmissor acetilcolina no cérebro, por exemplo, prejudica diretamente processos como aprendizado, memória, sono reparador e outras funções cognitivas. Realmente, muitos dos sintomas de demência estão relacionados à interrupção atividade da acetilcolina (neuromuscular), e esse neurotransmissor é o principal alvo dos atuais medicamentos para demência. Decididamente, o SEC tem demonstrado a capacidade de modular a comunicação neural associada à acetilcolina (bem como a outros neurotransmissores importantes), um entendimento que levou os cientistas a avaliar se a manipulação do sistema endocanabinoide pode ser usada para aliviar os sintomas de demência ou até mesmo retardar a progressão da doença. Ensaios clínicos mostram que os canabinoides são seguros para pessoas com demência.

Ensaios clínicos randomizados e controlados fornecem a evidência mais confiável sobre a segurança e eficácia dos tratamentos médicos. Nos últimos 20 anos, apenas sete desses estudos avaliaram a eficácia dos canabinoides para o SNP nos vários tipos de demência, e a maioria deles apresentou importantes falhas metodológicas. Conduzir testes clínicos com cannabis tem sido extremamente desafiador devido ao status legal histórico da planta.  

Em 1997, um grupo dos EUA relatou que pacientes com doença de Alzheimer que receberam Dronabinol por via oral, duas vezes por dia durante seis semanas, experimentaram aumento do apetite e redução do comportamento perturbado, conforme avaliado pelos cuidadores (pontuação CMAI). Resultados similares foram posteriormente relatados em dois pacientes com Alzheimer aos quais foi ministrada uma dose similar durante apenas duas semanas. 

Vários estudos mais aprofundados foram realizados na Holanda em 2015 e 2017 (um outro estudo, de 2015, pode ser encontrado aqui), nos quais pacientes com diferentes tipos de demência receberam THC sintético duas ou três vezes ao dia por períodos de quatro dias a 12 semanas. Embora esses estudos tenham sugerido que o tratamento é seguro em termos de efeitos colaterais indesejados, não houve melhorias clinicamente significativas em uma ampla gama de sintomas de demência.

Ainda assim, de acordo com um artigo científico recente sobre o uso de canabinoides nos sintomas de demência, os resultados preliminares são encorajadores. Os estudos envolveram pessoas com diferentes tipos de demência e essa amostragem “heterogênea” pode mascarar efeitos clínicos significativos. Além disso, o uso de doses relativamente pequenas de THC e a coadministração de outros medicamentos tornam ainda mais difícil chegar a conclusões sólidas.

Em maio de 2019, um grupo canadense tentou resolver algumas dessas deficiências. Este estudo, bem controlado e estatisticamente consistente, incluiu 40 participantes, todos com diagnóstico da doença de Alzheimer. Ele revelou que uma dose semelhante de THC sintético era eficaz no tratamento da agitação. Quarenta e cinco por cento dos pacientes deste estudo, no entanto, experimentaram sedação, mas não em níveis que exigissem a interrupção do tratamento.

Demência e Cannabis

A tese de que os canabinoides podem aliviar os sintomas neuropsiquiátricos de demência parece intuitivamente correta, pois a cannabis é amplamente usada para relaxamento e redução da ansiedade devido a seus efeitos farmacológicos e neurobiológicos no cérebro humano. Mas alguns cientistas imaginam que os canabinoides também podem ser úteis como moduladores da própria neurodegeneração, que é a principal neuropatologia da demência. 

Pesquisadores veem o potencial do canabidiol (CBD) na prevenção da progressão da doença de Alzheimer. O CBD tem toxicidade muito baixa, é rapidamente distribuído e pode passar através da barreira hematoencefálica. Vários estudos oferecem evidências de que esse fitocanabinoide realmente possui várias propriedades, incluindo efeitos de neuroproteção, anti-inflamatórios e antioxidantes, todos estes fatores importantes para retardar a neurodegeneração.

Infelizmente, até o momento não houve nenhum ensaio clínico avaliando o potencial terapêutico do CBD na demência. Mas ensaios em laboratórios de animais e culturas de células mostraram que as combinações de CBD e THC/CBD podem reduzir a produção e o acúmulo de proteínas prejudiciais e placas ( e tau), que causam neurodegeneração na doença de Alzheimer. Em vários estudos, um curto curso de tratamento com CBD em camundongos revelou a redução da destruição de neurônios no hipocampo (uma área do cérebro envolvida na formação da memória) e a promoção da formação de novas células. Além de proteger os neurônios, o CBD também apresentou efeitos terapêuticos comportamentais impedindo o aparecimento da deficiência de reconhecimento social em camundongos adultos de laboratório com doenças semelhantes ao Alzheimer. Como o jornal Behavioural Pharmacology resumiu de forma otimista, “o CBD poderia muito bem proporcionar alívio sintomático e/ou impedir a progressão da doença em pacientes com Alzheimer”.

No Reino Unido, um grande ensaio clínico em pacientes com demência teve início no final de 2019, e espera-se que forneça evidências mais consistentes sobre a eficácia do canabinoide no tratamento sintomático da doença. O estudo seria o primeiro a usar um spray bucal à base de cannabis contendo THC e CBD (Nabiximols). Atualmente, outro grande ensaio clínico em Israel está em andamento e deverá terminar em meados de 2020. Este estudo seria o primeiro a empregar um óleo de cannabis de uso medicinal de engenharia local (Avidekel), cujo principal ingrediente é o CBD.

Os ensaios clínicos randomizados são rigorosamente regulamentados e fornecem um alto nível de evidência, mas também consomem tempo e têm fome de recursos. Por esse motivo, pesquisadores e médicos também usam estudos de coorte e relatos de casos para tentar avaliar a utilidade de uma terapia. 

Vários desses estudos apontam mais claramente para os canabinoides como tratamentos eficazes para o SNP na demência. Em 2014, uma corte de 40 pacientes com diferentes tipos de demência mostrou-se menos agitada e agressiva, e mais descansada após uma dose mais alta de um análogo de THC daquele usado em ensaios clínicos. Dois anos depois, uma equipe israelense relatou resultados semelhantes num grupo de 11 pacientes com Alzheimer, que receberam óleo de cannabis medicinal (contendo uma dose semelhante de THC e quantidades variáveis de canabidiol) em doses semelhantes por 28 dias. Em 2019, um hospital em Genebra forneceu evidências de que uma dose mais alta de extrato de cannabis por via oral com THC e CBD, administrada por dois meses com um aumento gradual da dose, foi bem tolerada e melhorou bastante as questões comportamentais, a rigidez muscular e os cuidados diários em 10 pacientes do sexo feminino com demência. Finalmente, vários casos anedóticos de relatórios de pacientes tratados com doses variáveis de análogos do THC relataram reduções nos sintomas comportamentais e psicológicos da demência.

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O conteúdo do site The Cannigma tem fins puramente informativos. Não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um médico profissional experiente com conhecimento em cannabis antes de iniciar um tratamento.

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