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set 15, 2019 8 min de leitura

Descarboxilação da cannabis: entenda esse processo

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por Emily Earlenbaugh, PhD.
Cooking with weed

Quem está de alguma forma envolvido no universo da cannabis já se deparou com o termo “descarboxilação”. Muitos acreditam que esse processo químico seja necessário somente para preparar comestíveis com cannabis. Engano – descarboxilação é muito mais do que isso, e você precisa entendê-la para conhecer melhor aquilo que consome (seja comprando produtos preparados industrialmente ou preparando-os em casa).

Comecemos explicando o que é a descarboxilação. Esta é uma reação-chave no processo de criação dos canabinoides responsáveis pelos efeitos terapêuticos da cannabis. Ao entender como esse processo funciona, você consequentemente compreenderá melhor como prever os efeitos de diferentes opções de cannabis (tanto no que diz respeito à forma de consumo quanto à espécie) e, portanto, utilizá-la com mais eficácia.

A seguir, descubra a ciência envolvida na descarboxilação e aprenda a realizar esse processo com autonomia.

Como os canabinoides se desenvolvem e se transformam

Para entender a descarboxilação, primeiro você precisa compreender que a cannabis é repleta de substâncias químicas ativas que causam seus diversos efeitos terapêuticos. Sabe-se que há mais de 500 componentes químicos identificados na planta e, entre elas, foram identificados 144 canabinoides até o momento, compostos que são praticamente únicos da cannabis. E para entender o processo de descarboxilação, você precisa compreender como os canabinoides se formam na planta de cannabis.

Provavelmente você está familiarizado com os canabinoides mais comuns: THC, CBD e CBG. Você sabia que todos estes canabinoides começam sua vida de outra forma? Eles são, na verdade, o que é chamado de “formas neutras”. Esses poderosos canabinoides são geralmente consumidos para fins medicinais nessa forma mas, no entanto, eles iniciaram sua vida como ácidos.

A transmutação dos elementos

É geralmente desta forma que as coisas funcionam na botânica e na biologia quando se trata de transformações químicas. As moléculas se formam à medida que a planta cresce e, sob certas condições, como calor, luz ou oxidação, elas se alteram com o tempo. Um componente químico se transmuta em outro e, depois, novamente isso se repete. Este ciclo depende dos componentes químicos em questão e das condições em que existem. Com os canabinoides, esse ciclo de transformação começa com um ácido precursor.

Esses ácidos precursores são semelhantes, mas ligeiramente diferentes de suas formas neutras mais conhecidas. Usualmente, são indicados com a adição da letra A ao final do nome. A forma ácida do THC é THCA, do CBD é CBDA, e assim por diante. As formas neutras são constantemente consideradas mais potentes ou ativas no aspecto medicinal. Isso, no entanto, depende das necessidades dos pacientes – e assim, muitas vezes um ácido precursor pode ser mais eficaz no uso terapêutico. Afinal, sabe-se que tanto as formas ácidas quanto as neutras dos canabinoides podem ter uma poderosa função medicinal. Ao se transformarem, no entanto, elas geralmente adquirem novas características e provocam efeitos diferentes sobre o organismo humano.

Embora essas mudanças sejam pequenas quando se trata de estrutura química, elas podem ser enormes quando falamos sobre como esses canabinoides afetam o usuário. As mudanças são bastante perceptíveis, seja nos efeitos terapêuticos, seja no nível de psicoatividade que provocam.

CBGA: a mãe de todos os canabinoides

Curiosamente, a maioria dos ácidos precursores na cannabis também têm seu próprio ácido precursor. O CBGA é o precursor do THCA, CBDA, CBCA e do CBG.

Nos estágios iniciais de crescimento da planta, o principal canabinoide presente é o CBGA. Já à medida que a planta cresce e se metaboliza, eles se transformam em outros ácidos precursores. Por esta razão, ele é constantemente chamado de  “a mãe de todos os canabinoides”, ou seja, a primeira etapa na jornada de transformação de todos os outros canabinoides, que podem produzir praticamente qualquer outro canabinoide (desde que disponha das condições certas).

Algumas vezes as pessoas se referem a todo a classe de canabinoides relacionados ao CBG desta forma. Outros preferem usar o termo  “mãe de todos os canabinoides” como outra forma de se referir ao CBGA, e nomeiam oo CBG em sua forma neutra de “a princesa da maconha”. Ele é o único canabinoide não ácido formado diretamente do CBGA, então o título cabe perfeitamente.

 Transformando THCA em THC

Vamos a outro exemplo que nos ajuda a entender melhor como esse processo funciona.

O THC, canabinoide mais comentado no mundo da cannabis, começa como CBGA e depois se transforma em THCA, a forma ácida deste canabinoide. Quando você compra a cannabis em flor, ela não tem muito THC presente, mas sim sua forma ácida, THCA. Nesta forma ácida, o THCA tem grande potencial terapêutico, mas não é psicoativa.

Para transformar o THCA em THC, é necessária uma reação de descarboxilação. Ela pode ser provocada por calor, luz ou oxidação no decorrer do tempo. Seja qual for o gatilho, a reação química fará com que haja a transformação  do canabinoide de uma estrutura química para outra – da forma ácida para a forma neutra.

Se fumar cannabis, precisa descarboxilar?

Se você utiliza métodos inalatórios para consumir a cannabis, sejam eles por meio da vaporização ou do fumo, este processo acontece assim que você a aquece para produzir a fumaça ou o vapor. O calor da chama ou do elemento de aquecimento vai converter automaticamente o THCA em THC à medida que os canabinoides forem aquecidos.

Por outro lado, se você está utilizando a cannabis para preparar comestíveis, precisará descarboxilá-la antes de consumi-la. Um erro comum ao preparar os comestíveis é esquecer de realizar esta importante etapa. O resultado é um comestível que acaba por não produzir o efeito psicoativo esperado.

Usualmente, a descarboxilação é abordada apenas quando se trata de THC e THCA, mas os outros canabinoides têm seus próprios ácidos precursores e também só assumem suas formas neutras depois que algo causa essa transformação. O CBD vem do CBDA, o CBC do CBCA, e o CBG do CBGA.

Mas a história não pára por aqui. Essas formas neutras podem continuar a se transformar no que é chamado de “produto de degradação”. Ainda usando o THC como exemplo: se ele fosse exposto ao calor, luz ou oxidação ao longo do tempo, ele continuaria a se transformar e poderia se transformar em CBN ou Delta-8 THC, o “produto de degradação” do THC. Eles também são canabinoides de uso medicinal, mas produzem efeitos diferentes.

Conseguindo entender qual a forma do canabinoide que você consome, você também compreenderá como o produto de cannabis irá afetá-lo.

O que é a reação de descarboxilação?

Agora sabemos que os canabinoides se transformam de uma forma para a outra via descarboxilação. Mas o que é exatamente a reação de descarboxilação?

Quando as plantas estão sendo cultivadas, elas passam pelo processo de fotossíntese, pelo qual produzem energia a partir da luz solar. Uma parte deste processo é chamado de “carboxilação”, no qual o CO2 é condensado em moléculas orgânicas. A partir deste momento, nasce o ácido canabinoide. Estas moléculas são, no entanto, bastante instáveis.

Posteriormente, durante a descarboxilação, o processo reverso acontece. Quando exposto à luz, calor ou oxidação, o átomo de carbono se descola da molécula orgânica, mudando a estrutura para sua forma natural.

Você deve estar se perguntando “como usar essas informações em experiências diárias com a cannabis?” A descarboxilação é útil para entender uma variedade de contextos diferentes com o seu medicamento, mas há dois que surgem com frequência: na hora de escolher produtos de cannabis e na de cozinhar com ela.

Por que a descarboxilação é importante ao escolher produtos de cannabis?

Atualmente existem inúmeros medicamentos industrializados de cannabis. Um dos fatores mais importantes a serem considerados na hora de escolher entre eles é qual canabinoide estará ali presente. Dependendo da mistura dos canabinoides, você experimentará diferentes efeitos.

Um produto com alto teor de THC será, por exemplo, muito diferente de um com alto teor de THCA. Assim, é importante entender o que há no seu produto – e testes de laboratório são uma boa alternativa para saber-se exatamente quais elementos estão presentes.

Continha complicada

A descarboxilação pode complicar um pouco essa questão. Dependendo de como você planeja consumir o produto em questão, você pode acabar consumindo um canabinoide diferente do que aquele apresentado no resultado do teste. Vamos entender melhor.

Considere, por exemplo, a diferença entre uma tintura que é rica em THCA e outro tipo de extrato de cannabis (como a resina) que é rico em THCA. No caso da tintura, você ingere diretamente, então não haverá descarboxilação. Isso significa que você deve esperar uma experiência não psicoativa e com alto efeito antiinflamatório. No caso do extratos, você provavelmente optará por fumá-los ou vaporizá-los. E na medida em que você esquenta o extrato para consumi-lo, todo o THCA será descarboxilado e convertido em THC. Isso irá proporcionar efeitos psicotrópicos e uma série de efeitos terapêuticos.

Estas são duas diferentes experiências com o mesmo princípio ativo.

Aquecer ou não aquecer

A regra básica na hora de escolher é considerar se você vai aquecer o produto para consumi-lo ou não. Se você não vai aquecê-lo, os canabinoides listados nos testes de laboratório serão correspondente àqueles que você irá consumir. O THCA será consumido como THCA; THC como THC; CBD como CBD, e assim por diante.

No entanto, se você aquecer o produto para consumi-lo, como é necessário fazer no caso de flores, de óleos (que também pode ser consumido a frio) ou resinas, é mais provável que você acabe produzindo, com o calor, o canabinoide que resulta do processo de descarboxilação. O THCA originalmente presente vai ser consumido como THC quando aquecido. O THC presente vai ser consumido como CBD quando esquentado. O CBDA como CBD, e por aí vai.

Em outras palavras, no caso de produtos que serão aquecidos, é melhor ter níveis elevados do canabinoide precursor que você deseja consumir. Se não for aquecido, como acontece com tinturas e comestíveis pré-preparados, você vai encontrar nos produtos os canabinoides reais que deseja consumir.

Ainda assim, dependendo do produto, você encontrará resultados de testes apenas com THC, CBD e outras formas neutras de canabinoides. Isso pode ser um pouco confuso porque essas porcentagens de canabinoides neutros, na verdade, se referem à quantidade tanto da forma neutra do canabinoide quanto do ácido precursor. Como assim?

Testes apresentam números estimados

Grande parte dos laboratórios de testes usam a cromatografia líquida de alto desempenho (HPLC) para seus testes. Este método não usa o calor, então as amostras não são descarboxiladas. Assim, ao trabalhar com HPLC, de forma geral os laboratórios “estimam” o número de canabinoides neutros que estarão no produto final após a descarboxilação. Assim, por exemplo, para estimar a quantidade de THC, os laboratórios adicionam números do THC aos números do THCA que foram multiplicados pelo fator de conversão para contabilizar o processo de descarboxilação. O número total vai ser reportado como THC, ainda que o maior volume seja de THCA. Se você considerar apenas os números referentes aos elementos neutros listados no produto, e este não for um comestível já processado, você deve pressupor que a grande maioria dos canabinoides ainda está em sua forma ácida.

Uma observação sobre os terpenos

Para produtos que você vai aquecer, leve em conta o efeito que a descarboxilação tem sobre os terpenos na cannabis. Estes componentes químicos tendem a ter uma temperatura de evaporação mais baixa do que os canabinoides. Portanto, se você está tentando preservá-los, temperaturas mais baixas são melhores. Se você pretender vaporizar, deve ter em mente que temperaturas acima de 400°C podem fazer com que os terpenos se degradem, transformando-se em produtos químicos com propriedades cancerígenas conhecidas. Portanto, é melhor optar por temperaturas mais baixas.

Como descarboxilar para preparar comestíveis?

Outro caso no qual a descarboxilação é feita para o preparo dos comestíveis.

A descarboxilação não é uma etapa necessária caso você queira obter os efeitos dos canabinoides neutros. Conforme descrito acima, se a descarboxilação for ignorada ao se produzir um comestível de THC, você preparará um comestível com THCA, sem efeitos psicotrópicos ou terapêuticos oferecidos pelo THC.

Para descarboxilar a cannabis no momento de preparar comestíveis, a maioria das pessoas usa o forno para aquecer lentamente a cannabis até a temperatura necessária.

Para isso, primeiro pré-aqueça o forno. A temperatura pode variar dependendo de quanto tempo você  “assará” a cannabis e qual canabinoide você está esperando descarboxilar. Para transformar o THCA para THC, a temperatura padrão é entre 105°C e 120°C.

Depois de aquecer o forno até a temperatura ideal, parta sua cannabis em pequenos pedaços, coloque-a em uma assadeira e leve-a ao forno, deixando-a ali por cerca de 30 a 40 minutos.

O CBD descarboxila em uma temperatura mais alta. Assim, se você está trabalhando com cannabis de alto teor de CBDA, aqueça seu forno a 140°C e deixe-a ali por cerca de 60 a 90 minutos.

Quando terminar de assar sua flor de cannabis, ela estará pronta para ser utilizada no preparo de comestíveis.

(Traduzido por Wagner Vinicius Bordin)

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