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set 22, 2019 9 min de leitura

A Cannabis Pode Ajudar na Dor Menstrual?

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por Gleb Oleinik
Revisão científica realizada por Roni Sharon, MD

Visão Geral

A cannabis tem um longo histórico de uso no tratamento de males que afetam especificamente mulheres, tal como a dor menstrual. Esse fato não surpreende, uma vez que pesquisas sugerem que o sistema endocanabinoide regula grande parte dos processos relacionados às cólicas menstruais, tais como a dor e o funcionamento gastrointestinal.

Há fortes evidências de que a maconha alivia não apenas a dor da menstruação, como também sintomas associados comuns como náusea, perda de apetite e inchaço. Apesar de não existirem ainda evidências clínicas diretas que comprovem o benefício do uso da cannabis nesse campo, não é difícil entender como isso acontece, uma vez que que o sistema endocanabinoide é o principal agente envolvido no alívio desses males. É fato que a maconha é conhecida por mulheres afetadas por distúrbios relacionados à menstruação há milhares de anos, e temos dados suficientes para justificar seu uso – muito embora ainda sejam necessárias mais pesquisas antes que este tratamento seja mais disseminado.

O Sistema Endocanabinoide

O sistema endocanabinoide (SE) é formado por receptores de canabinoides, endocanabinoides e enzimas que os sintetizam e decompõem. O principal papel desse sistema é manter o equilíbrio do corpo humano, chamado homeostase. Para isso, o SE regula processos-chave, como dor, sono, apetite e função cognitiva, gastrointestinal e imunológica 

Até agora, os cientistas identificaram dois tipos de receptores de canabinoides: o CB1 e o CB2. Eles são encontrados em todo o corpo, mas o CB1 se concentra no sistema nervoso central e o CB2, nas células do sistema imunológico. Esses receptores são ativados pela anandamida e 2-AG (2-araquidonilglicerol), os dois principais endocanabinoides produzidos pelo nosso corpo.

Além disso, os canabinoides derivados de plantas (fitocanabinoides), como o THC e o CBD, também podem interagir com os receptores de canabinoides e enzimas relacionadas. Isso explica como os medicamentos à base de cannabis produzem efeitos terapêuticos.

Não há nenhuma pesquisa específica sobre a relação do SE com a dor menstrual e os sintomas associados à menstruação. No entanto, os receptores, endocanabinoides e enzimas do SE estão presentes no aparelho reprodutor feminino e desempenham um papel importante em seu funcionamento.

Além disso, o SE regula os processos relacionados aos sintomas da menstruação, como dor e funcionamento gastrointestinal. Ou seja, a administração de medicamentos à base de cannabis pode de fato oferecer alívio.

O sistema endocanabinoide desempenha um papel importante na regulação da dor. Isso é demonstrado pela presença e envolvimento dos receptores CB1, CB2 e endocanabinoides em todas as partes da chamada “via da dor” (os processos que resultam na sensação de dor). Por exemplo, o receptor CB1 se concentra em partes do sistema nervoso periférico e central relacionadas à detecção, envio e processamento de sinais de dor. Em paralelo, o receptor CB2 desempenha um papel maior na dor inflamatória por seu envolvimento na função imunológica. Também sabe-se que o 2-AG e a anandamida apresentam efeitos analgésicos. Essas descobertas sugerem que focar no SE é uma opção promissora para aliviar a dor e o desconforto abdominais característicos das cólicas menstruais.

Além disso, o sistema endocanabinoide é conhecido por regular o apetite e a ingestão de alimentos. Isso é demonstrado pelo fato de a ativação do receptor CB1 aumentar o apetite, razão pela qual os medicamentos sintéticos à base de THC são usados para combater a perda de peso associada a doenças. Desse modo, o SE também pode ser utilizado para combater a falta de apetite associada à dor menstrual.

O sistema endocanabinoide, ademais, desempenha um papel importante na regulação da função gastrointestinal, o que significa que ele pode aliviar a náusea, o inchaço e sintomas digestivos relacionados à menstruação. O mais incrível é que a ativação do receptor CB1 parece reduzir a motilidade gastrointestinal, a qual desempenha um papel central em sintomas como náusea, inchaço, diarréia e dor abdominal.

Enquanto isso, as pesquisas sugerem que a ativação do CB1 no sistema nervoso central também pode reduzir as ânsias de vômito, outro sintoma da menstruação. O papel do SE na regulação da função digestiva é destacado pela eficácia de medicamentos à base de THC, como o dronabinol, na redução de náuseas e vômitos.

Em conjunto, todas essas descobertas científicas revelam como podemos utilizar o SE para aliviar a dor menstrual e os sintomas relacionados à menstruação.

Cannabis e Dor Menstrual

Apesar do longo histórico de uso de cannabis para o combate do desconforto menstrual, atualmente há muitas evidências, mas não estudos, a respeito dos efeitos da cannabis no alívio da dor e dos sintomas relacionados à menstruação.

Para começar, o alívio da dor é sem dúvida o benefício com o maior respaldo de pesquisas na área. Um estudo de 2015, composto por 28 ensaios clínicos, concluiu que há “evidências suficientes” para embasar o uso na dor crônica. Mais importante, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina declararam em 2017 que “há provas conclusivas ou substanciais de que a cannabis e os canabinoides são eficazes no tratamento da dor crônica em adultos”.

Além disso, há evidências de que canabinoides como o THC e o CBD reduzem náuseas e vômitos. Por exemplo, um estudo de 2007 revelou que o dronabinol à base de THC é tão eficaz quanto a medicação prescrita para pacientes em quimioterapia: 71% deles relataram não sentir mais nenhuma náusea após a utilização da cannabis. Ademais, uma revisão sistemática (2015) de 23 estudos clínicos concluiu que “medicamentos à base de cannabis podem ser úteis no tratamento de casos refratários de náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia”.

Da mesma forma, todos sabem que o uso de maconha abre o apetite. O fato foi demonstrado por um estudo de 1995, em que 139 pessoas com perda de peso decorrente da AIDS usaram com sucesso o dronabinol para manter e até recuperar o peso. Esses efeitos são tão bem documentados que a cannabis em geral e o THC especificamente estão sendo agora bastante utilizados para ajudar pacientes com perda de peso associada a distúrbios crônicos.

Além disso, a maconha pode ajudar a aliviar a ansiedade e outros problemas mentais associados à dor menstrual. Por exemplo, um estudo de 2011 mostrou que o CBD, um canabinoide não psicoativo, atenua a ansiedade vinculada à necessidade de falar em público em pessoas com transtorno de ansiedade social, a chamada “fobia social”.

Outros dois estudos com pessoas que sofrem de doença inflamatória intestinal (DII) relataram que o uso de cannabis era comum para aliviar dores abdominais, diarreia, inchaço e perda de apetite, sintomas que também ocorrem junto com as cólicas menstruais.

Um estudo de 2002, realizado por um expert em cannabis medicinal, o Dr. Ethan Russo, apresentou registros milenares de uso de maconha para aliviar questões de saúde que afetam as mulheres, incluindo dores menstruais. De acordo com o estudo, até a rainha Victoria tomava doses mensais de cannabis, prescritas por seu médico, para reduzir o desconforto menstrual. O Dr. Russo concluiu sua pesquisa afirmando que a cannabis pode oferecer um tratamento alternativo seguro e eficaz para a dismenorreia (cólicas menstruais) e outros sintomas relacionados à menstruação.

Da mesma forma, uma pesquisa de 2018 apontou o uso da maconha para alívio de dores, e que canabinoides como THC e CBD têm propriedades relaxantes, as quais aliviam os espasmos musculares das cólicas menstruais.

Além disso, vários estudos apresentam relatórios informais sobre o alívio produzido pelo uso da cannabis em casos de cólicas menstruais, listando esse desconforto como uma das razões pelas quais as pessoas recorrem à cannabis medicinal. Por fim, pesquisas sobre adenomiose  e endometriose, duas patologias dolorosas que acometem o tecido que reveste o útero, sugerem que a cannabis pode ser uma opção terapêutica para o alívio da dor.

Em resumo, embora faltem estudos clínicos sobre a relação entre o uso da cannabis e o alívio da dor menstrual, há muitas evidências de que a cannabis pode ajudar na dor abdominal, náusea, inchaço, perda de apetite e outros sintomas da menstruação.

Efeitos Colaterais

Uma das principais barreiras ao uso medicinal da cannabis são seus efeitos colaterais psicoativos, que incluem perda de memória, euforia, ansiedade, paranoia e diminuição do tempo de reação.

A cannabis pode causar outros efeitos colaterais, como fadiga e boca seca, mas, de modo geral, trata-se de uma substância segura, com efeitos colaterais leves e transitórios. Além disso, o uso de preparados com alto teor de CBD, como o óleo de CBD, é uma maneira eficaz de evitar os efeitos psicoativos da cannabis.

Em comparação, os medicamentos comuns usados para aliviar a dor menstrual, como os AINEs (anti-inflamatórios não esteroides), estão associados a efeitos colaterais como úlceras estomacais, sangramentos gastrointestinais etc., e seu uso excessivo causa danos nos rins, fígado e coração.

Isenção de Responsabilidade

O conteúdo do site The Cannigma tem fins puramente informativos. Não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um médico profissional experiente com conhecimento em cannabis antes de iniciar um tratamento.

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