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Cannabis Pode Ajudar na Doença Celíaca?

por Gleb Oleinik

Sep 23, 2019

Visão Geral

A cannabis é usada há muito tempo como um remédio natural para distúrbios gastrointestinais. A doença celíaca atraiu muita atenção nos últimos anos: é uma condição caracterizada pela resposta imunológica ao glúten, um tipo de proteína encontrado em grãos.

Pesquisas iniciais indicam que o sistema endocanabinoide do corpo está envolvido com a doença celíaca, o que pode explicar o fato de algumas pessoas encontrarem alívio da dor abdominal, náusea, perda de peso, diarreia e outros sintomas da condição ao utilizar cannabis. No entanto, ainda é cedo para conclusões e as dietas sem glúten continuam sendo o único tratamento conhecido para a doença.

A boa notícia para quem sofre da doença celíaca é o grande número de evidências que conectam o sistema endocanabinoide à  manutenção da saúde intestinal; sua disfunção, por outro lado, é associada a uma ampla gama de condições inflamatórias e autoimunes, incluindo a doença celíaca.

Além disso, há evidências sólidas de que o CBD, o THC e outros extratos da cannabis podem aliviar a dor, náusea, perda de peso e outros sintomas desse distúrbio.

A cannabis para uso medicinal é um tratamento relativamente seguro e muitos pacientes celíacos relataram melhoras significativas como resultado de sua utilização.

O Sistema Endocanabinoide

O sistema endocanabinoide (SE) é constituído por receptores canabinoides, endocanabinoides e enzimas que ajudam a construir e decompor compostos canábicos. Este sistema desempenha um papel importante na manutenção da homeostase, o estado de equilíbrio saudável do organismo. Para fazê-lo, o sistema endocanabinoide atua na regulação de uma ampla variedade de processos, incluindo o inflamatório e o intestinal.

Os dois receptores canabinoides atualmente conhecidos são chamados CB1 e CB2. O CB1 é encontrado principalmente no sistema nervoso central, enquanto que o CB2 está presente sobretudo nas células do sistema imunológico. No entanto, ambos os receptores também participam do trato gastrointestinal, o qual é protegido pelo tecido linfático associado ao intestino (GALT), o maior componente do sistema imunológico.

Esses receptores são ativados por dois dos principais endocanabinoides produzidos em nossos corpos: anandamida e 2-AG. Os fitocanabinoides, canabinoides derivados da planta da cannabis, também interagem com o sistema endocanabinoide. Os dois principais fitocanabinoides são o tetra-hidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). Embora ambos os canabinoides tenham efeitos terapêuticos benéficos, o THC é mais popularmente conhecido por provocar o efeito de “high”.

Distúrbios do SE e do Intestino

Um volume crescente de evidências em pesquisas indica que o sistema endocanabinoide está envolvido no funcionamento saudável do trato gastrointestinal e que sua disfunção leva a distúrbios intestinais como a doença inflamatória intestinal (DII), Doença de Crohn e síndrome do intestino irritável (SII).

Por exemplo, variações genéticas dos genes responsáveis ​​pelo sistema endocanabinoide, como os do receptor CB1 e FAAH (uma enzima que decompõe os endocanabinoides), têm sido associadas à SII.

Outro fato importante é que há indícios de que os endocanabinoides e os receptores canabinoides têm seus níveis normais alterados quando lidam com DII, SII e outros distúrbios digestivos. Por exemplo, um estudo descobriu que os níveis de anandamida estavam elevados em pessoas com colite ulcerosa, um dos dois principais tipos de DII.

Já uma outra investigação clínica relatou que pacientes com SII e diarreia dominante tinham níveis mais altos de 2-AG, mas níveis mais baixos de OEA e PEA, dois compostos intimamente relacionados aos endocanabinoides.

Há evidências de que o contato do sistema endocanabinoide com preparados de cannabis, e também de outros compostos que ativam os receptores canabinoides ou reduzem a decomposição dos endocanabinoides, proporcionam alívio a quem sofre de distúrbios intestinais.

Em especial, um estudo de 2013 em pacientes com Doença de Crohn, um dos dois principais tipos de DII, mostrou que a maioria dos participantes tiveram melhorias significativas ao consumir cannabis rica em THC ao longo de oito semanas.

O SE e a Doença Celíaca

De forma similar às descobertas sobre distúrbios intestinais, estudos sobre a doença celíaca também relatam alterações no funcionamento do sistema endocanabinoide.

Um estudo de 2007 descobriu que pessoas com doença celíaca tinham níveis mais altos de anandamida e de receptores CB1, os quais voltaram ao normal depois que uma dieta sem glúten levou à remissão da doença.

Enquanto isso, um estudo de 2012 realizado por pesquisadores italianos descobriu que uma variante genética do gene do receptor CB2, chamada Q63R, aumentou o risco de doença celíaca em seis vezes.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que isso significava que o sistema endocanabinoide seria supra-regulado na doença celíaca como uma tentativa do organismo de combater a inflamação intestinal.

Esses achados foram comparados com um estudo semelhante de 2013, em que pacientes com doença celíaca ativa apresentaram níveis mais altos de receptores CB1 e CB2, os quais retornaram a níveis normais, correspondentes aos de indivíduos saudáveis, ​​após a remissão da doença.

Isso levanta a questão: a cannabis pode ajudar?

Cannabis e a Doença Celíaca

Até agora, nenhum estudo abordou especificamente o uso de cannabis no tratamento da doença celíaca. Isso se deve em parte às recentes restrições legais à planta e, consequentemente, a dificuldade de conduzir estudos. A única evidência de pesquisa que temos atualmente é que os preparados de cannabis podem ajudar em sintomas da doença celíaca, incluindo dor abdominal, náusea, perda de peso e enxaqueca.

Para começar, os efeitos da cannabis no alívio da dor são sustentados por vários estudos, e a dor crônica é a condição de qualificação mais comum para o uso medicinal da cannabis em diversos países.

Da mesma forma, os efeitos antieméticos da cannabis são apoiados por décadas de pesquisa. Uma avaliação sistemática de 23 ensaios clínicos realizada em 2015 sobre sintomas relacionados à quimioterapia concluiu que “os medicamentos à base de cannabis podem ser úteis para o tratamento de náuseas e vômitos refratários induzidos por este tratamento”. De fato, as evidências são fortes o suficiente para justificar o uso de um medicamento exclusivo de THC, o Marinol, para náuseas provocadas pela quimioterapia.

Os efeitos de aumento de apetite provocados pela cannabis estão bem documentados e já são usados ​​para ajudar pacientes que sofrem de perda de peso associada ao câncer, HIV e outros quadros clínicos.

Além disso, há evidências de que os preparados de cannabis podem ajudar com sintomas menos comuns da doença celíaca, como enxaquecas e ansiedade, e pesquisas anteriores já mostraram que os canabinoides têm propriedades imunossupressoras que podem ajudar em condições autoimunes (como a doença celíaca).

Por fim, existem muitos relatos (não científicos) de pessoas com doença celíaca que relataram melhora ao utilizar medicamentos de cannabis.

A conclusão é que, embora ainda não tenhamos comprovações científicas de que a cannabis ajuda no tratamento da doença celíaca, as evidências mostram que ela pode aliviar muitos de seus sintomas e talvez até mesmo atuar em suas causas subjacentes, como a autoimunidade.

Para completar, os pesquisadores enfatizam que os canabinoides e medicamentos que aumentam os níveis de produção de endocanabinoides já demonstraram benefícios nos distúrbios intestinais e se tornarão cada vez mais proeminentes com o avanço da pesquisa nos próximos anos.

Efeitos Colaterais

As pesquisas clínicas indicam que a cannabis é uma substância segura. Embora esteja associada a alguns efeitos colaterais, a grande maioria deles é considerada leve e não grave.

Além disso, é importante lembrar que os efeitos colaterais da cannabis para uso medicinal variam dependendo do preparado específico utilizado.

Em especial, sabe-se que o THC causa efeitos psicoativos de curto prazo, como ansiedade, paranoia, comprometimento da memória e tempo de reação mais lento, além de aumento da frequência cardíaca e olhos vermelhos.

Já o CBD não é psicoativo, mas pode causar outros efeitos colaterais como fadiga, baixa pressão arterial, diarreia e boca seca. Por isso, esses efeitos são mais prováveis ​​ao se usar preparados com baixo teor de THC e ricos em CBD, como óleo de CBD de full spectrum.

Sobre a Doença Celíaca

Visão Geral

A doença celíaca é uma condição autoimune que afeta o trato digestivo. Quando você tem a doença, o sistema imunológico do seu corpo ataca o sistema digestivo toda vez que você ingere glúten, uma proteína encontrada nas farinhas de trigo, cevada e centeio.

Com o tempo, esses ataques podem danificar as vilosidades, que são pequenas partes do intestino delgado que se destacam das paredes intestinais e absorvem os nutrientes do alimento. Quando as vilosidades são danificadas, elas não conseguem absorver os nutrientes adequadamente e seu corpo começa a sofrer as consequências.

A doença celíaca é bastante comum. Uma em cada 100 pessoas em todo o mundo tem doença, incluindo 3 milhões de americanos. No Brasil, segundo a Associação de Celíacos do Brasil – Acelbra,  há um portador da doença celíaca para cada 600 habitantes. O número de celíacos, porém, pode ser maior, já que as pesquisas apontam apenas os já diagnosticados. Na Europa, a prevalência varia muito entre os diferentes países: na Suécia, a prevalência de doença celíaca é de 3,5%, na Finlândia, de 2,4%. Já na Alemanha, estima-se que menos de 0,3% da população seja portadora da doença.

A doença celíaca é mais comum entre crianças do que adultos e ocorre mais frequentemente em mulheres do que em homens.

Sintomas

Os sintomas da doença celíaca são diferentes para cada pessoa. Como outras doenças autoimunes em que o sistema imunológico ataca o organismo, os pacientes podem não apresentar sintomas ou, por outro lado, ficarem completamente incapacitados. Os sintomas também são muito diferentes em adultos e crianças.

Nos adultos, os principais sintomas da doença celíaca estão relacionados ao trato digestivo e ao abdome, incluindo:

  • Diarreia, às vezes com fezes de cheiro particularmente ruim
  • Constipação
  • Dor abdominal e indigestão
  • Inchaço e gases
  • Náusea e vômito

 

Os adultos também podem apresentar outros sintomas não diretamente relacionados ao sistema digestivo. Estes são tipicamente causados ​​pela falta de nutrientes, devido ao dano causado às vilosidades. Os sintomas secundários da doença celíaca incluem:

  • Cansaço e fadiga, geralmente devido à desnutrição
  • Perda de peso
  • Anemia, geralmente devido à deficiência de ferro
  • Osteoporose ou osteomalacia (perda de densidade óssea)
  • Erupção cutânea com prurido (dermatite herpetiforme)
  • Dor nas articulações
  • Úlceras na boca

 

A doença celíaca também pode provocar danos nos nervos, desencadeando dor, formigamento e dormência nas mãos e nos pés. Também pode causar dificuldades na fala, equilíbrio e cognição. Mulheres com doença celíaca geralmente têm dificuldade para engravidar, enquanto ambos os sexos podem descobrir mau funcionamento do baço (hiposplenismo). Além disso, como em outras doenças crônicas, o sofrimento no longo prazo pode causar problemas de humor, como ansiedade e depressão, além de má qualidade de sono.

Crianças com doença celíaca são mais propensas a apresentar sintomas digestivos, incluindo náusea e vômito, constipação ou diarreia, gases, dor abdominal, barriga inchada e fezes particularmente fétidas. Como elas não conseguem absorver os nutrientes de que precisam no momento em que estão em rápido crescimento, podem apresentar os seguintes sintomas:

  • Estatura anormalmente baixa
  • Puberdade atrasada
  • Em bebês, uma falha no desenvolvimento
  • Perda de peso
  • Anemia 
  • Esmalte dentário danificado
  • Sintomas neurológicos como TDAH, dificuldades de aprendizado, falta de coordenação muscular, convulsões e dores de cabeça
  • Irritabilidade geral

Quando Procurar um Médico

A indigestão é um sintoma comum e, por isso, pode ser difícil saber quando uma queixa estomacal é grave. Em geral, você deve ir ao médico quando há diarreia, constipação ou náusea e vômito por duas semanas ou mais. Crianças que não estejam crescendo, apresentem barriga protuberante e estejam pálidas também devem ser levadas ao médico.

Tratamento

A doença celíaca não pode ser curada, mas seus sintomas podem ser aliviados. O tratamento mais eficaz é evitar o glúten por completo. Pode levar algum tempo para aprender quais alimentos você pode ou não comer e se ajustar a uma dieta sem glúten. Ele é encontrado nas farinhas de trigo, cevada e centeio, mas também pode estar presente em alimentos processados, alguns suplementos herbais, minerais e nutricionais, alguns medicamentos e até mesmo em batons.

Para a maioria das pessoas, uma dieta rigorosa e sem glúten impede o sistema imunológico de atacar o intestino delgado para que o tubo digestivo possa cicatrizar. Geralmente, leva cerca de três a seis meses para o intestino das crianças se recuperar; em adultos, isso pode levar vários anos.

Como parte do processo de cicatrização, algumas pessoas precisam de outros tratamentos para ajudar a reduzir a inflamação no intestino. Eles podem incluir:

  • Medicamentos como esteróides, azatioprina (Azasan, Imuran) ou budesonida (Entocort EC, Uceris) para reduzir a inflamação.
  • Como a doença celíaca danifica as vilosidades e afeta a capacidade de absorver nutrientes, muitas pessoas com a doença também precisam tomar vitaminas, minerais e suplementos para gerenciar os efeitos colaterais da falta de nutrientes. Estes incluem frequentemente:
  • Ferro
  • Cobre
  • Vitamina B12, D e K
  • Zinco
  • Folato

Se você tem dermatite herpetiforme pruriginosa como resultado de sua doença celíaca, provavelmente receberá medicamentos como a Dapsona para ajudar a tratá-la.

Um pequeno número de pessoas tem doença celíaca refratária, que é uma doença celíaca que não pode ser controlada através da dieta sem glúten. Não existe tratamento eficaz para esta manifestação da doença.

Complicações

Se você ignorar os sintomas da doença celíaca ou continuar a ingerir glúten, aumentará muito o risco de sofrer complicações graves, incluindo:

  • Desnutrição grave e anemia
  • Osteoporose, que torna seus ossos frágeis e quebradiços
  • Infertilidade e abortos frequentes
  • Intolerância persistente à lactose
  • Maior risco de desenvolver câncer, principalmente cânceres do trato digestivo
  • Distúrbios neurológicos, incluindo epilepsia, ataxia (problemas de equilíbrio e coordenação), demência precoce e dor nos nervos
  • Disfunção na vesícula biliar e/ ou pâncreas
  • Ansiedade e depressão
  • Fadiga crônica

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