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Sativa versus Indica: Quais as Suas Diferenças?

Qualquer pessoa ligeiramente familiarizada com a cannabis provavelmente sabe que existem dois grupos distintos de cepas, Sativa e Indica. Muitos consumidores de cannabis usam essa distinção como forma de prever os efeitos que cada variedade poderia apresentar. Há inclusive quem diga que prefere a Sativa à Indica, ou vice-versa.

A crença geral é que as cepas de Sativa melhoram o humor e tem um efeito psicoativo revigorante, sendo ideal para atividades, reuniões sociais e projetos criativos; já as cepas de Indica teriam um efeito relaxante sobre o corpo inteiro, e seriam mais adequadas para quem quer “desacelerar” no final do dia e adormecer mais facilmente.

Apesar de essa crença estar profundamente enraizada na visão mais tradicional da cannabis, não há qualquer evidência científica que apoie esse conceito. De fato, pesquisas revelam que muitos outros fatores podem fazer com que uma cepa específica produza certos efeitos – e o fato de ser uma planta Sativa ou Indica não teria basicamente nenhuma importância.

Então, o que há de verdade nessa história de Sativa ou Indica? Qual é a diferença real entre essas espécies de cannabis? E o que a ciência afirma sobre como e por quê as cepas afetam cada indivíduo de maneira diferente? Vamos nos aprofundar nesse tema.

As Origens da Sativa e da Indica

 A cannabis vem sendo cultivada há milênios. Evidências arqueológicas provaram que chineses e japoneses já usavam a planta no período pré-neolítico.

Mas não foi até o Renascimento que um botânico alemão chamado Leonhart Fuchs cunhou o termo “Sativa”, o qual usou para indicar o  cânhamo domesticado.

Mais tarde, no século XVIII, o botânico sueco Carl Linnaeus adotou o termo Cannabis Sativa como o nome latino do cânhamo em seu livro Species Plantarum. “Sativa” significa simplesmente “cultivada” em latim, referindo-se às plantações de cânhamo cultivadas na Europa e na Eurásia ocidental para o uso de suas fibras e sementes.

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Cerca de 30 anos depois, Jean-Baptiste Lamarck publicou uma descrição do que ele considerava uma segunda espécie de cannabis, à qual chamou de Cannabis Indica. Significando “da Índia” em latim, a Cannabis Indica se refere à variedade silvestre psicoativa de cannabis descoberta na Índia, usada para produzir haxixe.

Como essas duas variedades foram mantidas geograficamente separadas por séculos, a seleção natural e artificial levou à evolução de dois tipos muito diferentes de cannabis. No entanto, nunca houve consenso entre os botânicos – seriam a cannabis Sativa e a cannabis Indica realmente duas espécies distintas, ou a cannabis Indica seria simplesmente uma subespécie da planta? Até hoje o assunto gera acalorados debates.

Para complicar as coisas, uma terceira espécie de cannabis foi classificada pelo botânico russo D. E. Janischewsky em 1924, a qual ele batizou de Cannabis ruderalis . Ruderalis significa basicamente “do entulho”, pois as variedades de plantas ruderais são as primeiras a brotar “do entulho” em áreas nas quais qualquer outra vegetação foi removida. 

Ruderalis é uma variedade de cannabis silvestre de floração automática encontrada no leste da Europa e descoberta originalmente na Sibéria.

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Como os Termos São Usados Atualmente

Atualmente sabemos que o termo Sativa foi originalmente usado para descrever o cânhamo, enquanto Indica foi aplicado na descrição da variedade de cannabis medicinal psicoativa. Isso significa que quase todas as cepas de cannabis utilizadas hoje são na verdade originárias da variedade cannabis Indica original, enquanto a planta conhecida originalmente como cannabis Sativa é amplamente usada na indústria para a produção de fibras, alimentos e também para CBD.

Mas, no mundo moderno, esses termos passaram a significar algo completamente diferente. Em algum momento – à medida que o uso da cannabis medicinal aumentou e a cultura da cannabis se espalhou por todo o mundo – os termos Sativa e Indica evoluíram para uma nova maneira de categorizar as milhares de cepas de cannabis que circulam hoje no mercado.

A Sativa Hoje

  • Originalmente classificada como cannabis Indica ssp. Indica
  • Alta e delgada, cresce até uma altura que pode variar de 1,5 a 6 metros ou mais
  • Folhas longas e estreitas
  • Menos ramos
  • Efeitos comumente associados: energizante, estimulante, efeito psicoativo cerebral, favorece a produtividade e criatividade

A Indica Hoje

  • Originalmente classificada como cannabis Indica ssp. afghanica
  • Arbusto baixo, alcança de 0,5 a 1,5 metro
  • Folhas largas
  • Os botões tendem a ser mais largos
  • Ramificação compacta
  • Efeitos comumente associados: relaxante, calmante, alívio da dor, indução do sono

O Que Diz a Pesquisa?

Embora seja amplamente aceita a suposição de que as cepas Sativa e Indica tenham por natureza propriedades e efeitos diferentes, na verdade não há evidências científicas que o comprovem –  é apenas um mito que se tornou muito popular.

“Existem cepas bioquimicamente distintas da cannabis medicinal, mas a distinção Sativa/Indica usada na literatura leiga não faz qualquer sentido. É simplesmente um exercício de futilidade”, explica”, o  Dr. Ethan Russo, MD, especializada no sistema endocanabinoide humano. “Não se pode hoje adivinhar o conteúdo bioquímico de uma determinada planta de cannabis com base em sua altura, ramificação ou morfologia das folhas. O grau de cruzamento/hibridação é tal que somente uma análise bioquímica pode indicar a um consumidor potencial ou cientista o que realmente existe na planta.”

Em resumo, a única diferença real entre as plantas de cannabis Sativa e Indica é sua aparência e a forma com que crescem – as Sativas se desenvolvem longas e altas, enquanto as Indicas são baixas e espessas. Além disso, todas as cepas de cannabis com as quais estamos familiarizados hoje já se tornaram híbridas de sucessivas combinações de várias Sativas e Indicas.

Se a classificação como Sativa ou Indica não é válida e comprovada para determinar os efeitos que uma determinada variedade de cannabis terá, quais são os fatores que realmente importam?

Na realidade, uma combinação de três fatores está por trás dos efeitos das cepas de cannabis: o perfil químico da planta, a biologia e tolerância de cada um, e o método de consumo.

Perfil Químico

Vamos começar pelo perfil químico. A cannabis é composta de centenas de compostos químicos que levam a uma ampla gama de efeitos terapêuticos e recreativos que podem ser experimentados a partir de qualquer cepa. Os principais causadores desses efeitos são os chamados canabinoides.

O THC (Δ9-tetra-hidrocanabinol) é o canabinoide psicoativo que faz com que os usuários se sintam alegres e eufóricos; ele também pode reduzir a dor e a ansiedade. No entanto, o excesso de THC pode causar tonturas e trazer outros efeitos colaterais.

O CBD (canabidiol) não é intoxicante, mas pode ter efeitos ansiolíticos, antipsicóticos e antidepressivos. O CBD também reduz a inflamação e a dor.

A proporção de THC e CBD é muito mais determinante em relação a seus efeitos do que o conhecimento da cepa em questão (Sativa ou Indica).

Além dos canabinoides, a cannabis medicinal também contém compostos aromáticos chamados terpenos. São eles quem fazem com que diferentes tipos de cannabis apresentem aromas cítricos, de pinheiro etc. O conteúdo terpenoide de uma cepa desempenha um papel importante no efeito energizante versus o sedativo comumente atribuídos (erroneamente), pela cultura popular, à diferença entre Sativa e Indica.

Há quem diga que a razão pela qual as Indicas causam um efeito sedativo são os níveis mais altos de CBD, mas isso também é um mito – na verdade, esse efeito se deve aos terpenos.

“A sedação das chamadas ‘cepas de Indica’ é atribuída falsamente ao conteúdo de CBD quando, de fato, o CBD é estimulante em doses baixas e moderadas”, explicou o Dr. Ethan Russo. “Na realidade, a sedação nas cepas de cannabis medicinal mais comuns deve ser atribuída ao seu conteúdo de mirceno, um monoterpeno com um efeito fortemente sedativo (chamado “couch-lock” em inglês, algo como “derrubar no sofá”), semelhante a de um narcótico. Por outro lado, um alto teor de limoneno (comum nas cascas de frutas cítricas) levanta o humor.”

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Os flavonoides também desempenham um papel importante no aroma, sabor e efeitos das cepas de maconha. Os flavonoides não são tão pesquisados quanto os canabinoides e os terpenos, mas até agora já foram identificados cerca de 20 deles na cannabis, cada um com um efeito medicinal diferente. Por exemplo, alguns flavonoides são anti-inflamatórios, enquanto outros podem reduzir a ansiedade.

A sinergia de diferentes canabinoides, terpenos, flavonoides e fitoquímicos adicionais cria os efeitos subjetivos e medicinais únicos e diversos trazidos por cada variedade de marijuana.

Outros Fatores

A biologia de cada indivíduo e sua tolerância à cannabis também contribuem para definir o impacto das diferentes cepas. Uma pessoa com alto grau de tolerância pode não sentir nenhum efeito, enquanto um usuário sensível talvez experimente efeitos muito fortes da mesma cepa e dosagem.

Daí a importância de considerar o perfil químico das cepas, em vez de focar na distinção entre Sativa e Indica. Cepas de marijuana com alto teor de THC produzirão efeitos psicoativos muito mais fortes que outras com menos THC. Já as variedades com alto teor de CBD podem proporcionar alívio da dor, sem gerar efeitos psicoativos colaterais.

O método de consumo também muda a maneira como a cannabis medicinal afeta o usuário, além de determinar a duração do efeito. Fumar ou vaporizar a cannabis trará um efeito mais rápido e de curta duração, enquanto que ingeri-la implica em um período mais longo até que se sintam os efeitos, que também terão duração prolongada.

O Que São Cepas Híbridas?

Na verdade, todas as variedades de cannabis existentes hoje são híbridas de Sativa e Indica. A única exceção a essa regra são as chamadas “cepas Landrace”. As cepas Landrace são as espécies antigas originais que não foram cruzadas e que, portanto, têm DNA menos diluído. Elas são, basicamente, as ancestrais de todas as linhagens híbridas modernas que todos conhecemos hoje. As variedades Landrace incluem Hindu Kush, Pure Afghan, Acapulco Gold e Panama Red, entre outras. Todas são bastante raras nos dias de hoje.

Com exceção das variedades Landrace, os cultivadores de marijuana vêm cruzando seletivamente diferentes cepas há centenas de anos a fim de produzir híbridos com efeitos e propriedades novos e únicos. Certas cepas podem ter sido criadas para obter-se um efeito específico para a aplicação medicinal. A linhagem Charlotte’s Web, por exemplo, foi desenvolvida especificamente para tratar a epilepsia.

Conclusões

Ainda precisamos de muitos estudos para entender melhor os efeitos da cannabis. Mas algo a pesquisa científica já demonstrou claramente: o fato de uma variedade ser Sativa ou Indica tem pouca importância no que diz respeito a seus efeitos.

Em vez disso, é preciso analisar as proporções do perfil químico de cada cepa, pois é esse perfil que ajudará os consumidores a prever seus possíveis efeitos. Isso é especialmente importante se você estiver procurando a melhor variedade para ajudar a aliviar seu problema de saúde.

“Eu recomendaria à comunidade científica,  imprensa e público abandona a nomenclatura Sativa/Indica e insistiria na disponibilidade de estudos bioquímicos precisos sobre perfis de canabinoides e terpenoides na cannabis, tanto no mercado médico como no recreativo”, disse o Dr. Russo. “Isso é o mínimo necessário para atender às necessidades de precisão científica e saúde pública.”

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