Quem estĆ” de alguma forma envolvido no universo da cannabis jĆ” se deparou com o termo ādescarboxilaçãoā. Muitos acreditam que esse processo quĆmico seja necessĆ”rio somente para preparar comestĆveis com cannabis. Engano ā descarboxilação Ć© muito mais do que isso, e vocĆŖ precisa entendĆŖ-la para conhecer melhor aquilo que consome (seja comprando produtos preparados industrialmente ou preparando-os em casa).
Comecemos explicando o que é a descarboxilação. Esta é uma reação-chave no processo de criação dos canabinoides responsÔveis pelos efeitos terapêuticos da cannabis. Ao entender como esse processo funciona, você consequentemente compreenderÔ melhor como prever os efeitos de diferentes opções de cannabis (tanto no que diz respeito à forma de consumo quanto à espécie) e, portanto, utilizÔ-la com mais eficÔcia.
A seguir, descubra a ciência envolvida na descarboxilação e aprenda a realizar esse processo com autonomia.

Como os canabinoides se desenvolvem e se transformam
Para entender a descarboxilação, primeiro vocĆŖ precisa compreender que a cannabis Ć© repleta de substĆ¢ncias quĆmicas ativas que causam seus diversos efeitos terapĆŖuticos. Sabe-se que hĆ” mais de 500 componentes quĆmicos identificados na planta e, entre elas, foram identificados 144 canabinoides atĆ© o momento, compostos que sĆ£o praticamente Ćŗnicos da cannabis. E para entender o processo de descarboxilação, vocĆŖ precisa compreender como os canabinoides se formam na planta de cannabis.
Provavelmente vocĆŖ estĆ” familiarizado com os canabinoides mais comuns: THC, CBD e CBG. VocĆŖ sabia que todos estes canabinoides comeƧam sua vida de outra forma? Eles sĆ£o, na verdade, o que Ć© chamado de āformas neutrasā. Esses poderosos canabinoides sĆ£o geralmente consumidos para fins medicinais nessa forma mas, no entanto, eles iniciaram sua vida como Ć”cidos.
A transmutação dos elementos
Ć geralmente desta forma que as coisas funcionam na botĆ¢nica e na biologia quando se trata de transformaƧƵes quĆmicas. As molĆ©culas se formam Ć medida que a planta cresce e, sob certas condiƧƵes, como calor, luz ou oxidação, elas se alteram com o tempo. Um componente quĆmico se transmuta em outro e, depois, novamente isso se repete. Este ciclo depende dos componentes quĆmicos em questĆ£o e das condiƧƵes em que existem. Com os canabinoides, esse ciclo de transformação comeƧa com um Ć”cido precursor.
Esses Ć”cidos precursores sĆ£o semelhantes, mas ligeiramente diferentes de suas formas neutras mais conhecidas. Usualmente, sĆ£o indicados com a adição da letra A ao final do nome. A forma Ć”cida do THC Ć© THCA, do CBD Ć© CBDA, e assim por diante. As formas neutras sĆ£o constantemente consideradas mais potentes ou ativas no aspecto medicinal. Isso, no entanto, depende das necessidades dos pacientes ā e assim, muitas vezes um Ć”cido precursor pode ser mais eficaz no uso terapĆŖutico. Afinal, sabe-se que tanto as formas Ć”cidas quanto as neutras dos canabinoides podem ter uma poderosa função medicinal. Ao se transformarem, no entanto, elas geralmente adquirem novas caracterĆsticas e provocam efeitos diferentes sobre o organismo humano.
Embora essas mudanƧas sejam pequenas quando se trata de estrutura quĆmica, elas podem ser enormes quando falamos sobre como esses canabinoides afetam o usuĆ”rio. As mudanƧas sĆ£o bastante perceptĆveis, seja nos efeitos terapĆŖuticos, seja no nĆvel de psicoatividade que provocam.
CBGA: a mãe de todos os canabinoides
Curiosamente, a maioria dos Ôcidos precursores na cannabis também têm seu próprio Ôcido precursor. O CBGA é o precursor do THCA, CBDA, CBCA e do CBG.
Nos estĆ”gios iniciais de crescimento da planta, o principal canabinoide presente Ć© o CBGA. JĆ” Ć medida que a planta cresce e se metaboliza, eles se transformam em outros Ć”cidos precursores. Por esta razĆ£o, ele Ć© constantemente chamado de āa mĆ£e de todos os canabinoidesā, ou seja, a primeira etapa na jornada de transformação de todos os outros canabinoides, que podem produzir praticamente qualquer outro canabinoide (desde que disponha das condiƧƵes certas).
Algumas vezes as pessoas se referem a todo a classe de canabinoides relacionados ao CBG desta forma. Outros preferem usar o termo āmĆ£e de todos os canabinoidesā como outra forma de se referir ao CBGA, e nomeiam oo CBG em sua forma neutra de āa princesa da maconhaā. Ele Ć© o Ćŗnico canabinoide nĆ£o Ć”cido formado diretamente do CBGA, entĆ£o o tĆtulo cabe perfeitamente.
Transformando THCA em THC
Vamos a outro exemplo que nos ajuda a entender melhor como esse processo funciona.
O THC, canabinoide mais comentado no mundo da cannabis, começa como CBGA e depois se transforma em THCA, a forma Ôcida deste canabinoide. Quando você compra a cannabis em flor, ela não tem muito THC presente, mas sim sua forma Ôcida, THCA. Nesta forma Ôcida, o THCA tem grande potencial terapêutico, mas não é psicoativa.
Para transformar o THCA em THC, Ć© necessĆ”ria uma reação de descarboxilação. Ela pode ser provocada por calor, luz ou oxidação no decorrer do tempo. Seja qual for o gatilho, a reação quĆmica farĆ” com que haja a transformação do canabinoide de uma estrutura quĆmica para outra ā da forma Ć”cida para a forma neutra.
Se fumar cannabis, precisa descarboxilar?
Se você utiliza métodos inalatórios para consumir a cannabis, sejam eles por meio da vaporização ou do fumo, este processo acontece assim que você a aquece para produzir a fumaça ou o vapor. O calor da chama ou do elemento de aquecimento vai converter automaticamente o THCA em THC à medida que os canabinoides forem aquecidos.
Por outro lado, se vocĆŖ estĆ” utilizando a cannabis para preparar comestĆveis, precisarĆ” descarboxilĆ”-la antes de consumi-la. Um erro comum ao preparar os comestĆveis Ć© esquecer de realizar esta importante etapa. O resultado Ć© um comestĆvel que acaba por nĆ£o produzir o efeito psicoativo esperado.
Usualmente, a descarboxilação é abordada apenas quando se trata de THC e THCA, mas os outros canabinoides têm seus próprios Ôcidos precursores e também só assumem suas formas neutras depois que algo causa essa transformação. O CBD vem do CBDA, o CBC do CBCA, e o CBG do CBGA.
Mas a história nĆ£o pĆ”ra por aqui. Essas formas neutras podem continuar a se transformar no que Ć© chamado de āproduto de degradaçãoā. Ainda usando o THC como exemplo: se ele fosse exposto ao calor, luz ou oxidação ao longo do tempo, ele continuaria a se transformar e poderia se transformar em CBN ou Delta-8 THC, o āproduto de degradaçãoā do THC. Eles tambĆ©m sĆ£o canabinoides de uso medicinal, mas produzem efeitos diferentes.
Conseguindo entender qual a forma do canabinoide que você consome, você também compreenderÔ como o produto de cannabis irÔ afetÔ-lo.
O que é a reação de descarboxilação?
Agora sabemos que os canabinoides se transformam de uma forma para a outra via descarboxilação. Mas o que é exatamente a reação de descarboxilação?
Quando as plantas estĆ£o sendo cultivadas, elas passam pelo processo de fotossĆntese, pelo qual produzem energia a partir da luz solar. Uma parte deste processo Ć© chamado de ācarboxilaçãoā, no qual o CO2 Ć© condensado em molĆ©culas orgĆ¢nicas. A partir deste momento, nasce o Ć”cido canabinoide. Estas molĆ©culas sĆ£o, no entanto, bastante instĆ”veis.
Posteriormente, durante a descarboxilação, o processo reverso acontece. Quando exposto à luz, calor ou oxidação, o Ôtomo de carbono se descola da molécula orgânica, mudando a estrutura para sua forma natural.
VocĆŖ deve estar se perguntando ācomo usar essas informaƧƵes em experiĆŖncias diĆ”rias com a cannabis?ā A descarboxilação Ć© Ćŗtil para entender uma variedade de contextos diferentes com o seu medicamento, mas hĆ” dois que surgem com frequĆŖncia: na hora de escolher produtos de cannabis e na de cozinhar com ela.
Por que a descarboxilação é importante ao escolher produtos de cannabis?
Atualmente existem inĆŗmeros medicamentos industrializados de cannabis. Um dos fatores mais importantes a serem considerados na hora de escolher entre eles Ć© qual canabinoide estarĆ” ali presente. Dependendo da mistura dos canabinoides, vocĆŖ experimentarĆ” diferentes efeitos.
Um produto com alto teor de THC serĆ”, por exemplo, muito diferente de um com alto teor de THCA. Assim, Ć© importante entender o que hĆ” no seu produto ā e testes de laboratório sĆ£o uma boa alternativa para saber-se exatamente quais elementos estĆ£o presentes.
Continha complicada
A descarboxilação pode complicar um pouco essa questão. Dependendo de como você planeja consumir o produto em questão, você pode acabar consumindo um canabinoide diferente do que aquele apresentado no resultado do teste. Vamos entender melhor.
Considere, por exemplo, a diferença entre uma tintura que é rica em THCA e outro tipo de extrato de cannabis (como a resina) que é rico em THCA. No caso da tintura, você ingere diretamente, então não haverÔ descarboxilação. Isso significa que você deve esperar uma experiência não psicoativa e com alto efeito antiinflamatório. No caso do extratos, você provavelmente optarÔ por fumÔ-los ou vaporizÔ-los. E na medida em que você esquenta o extrato para consumi-lo, todo o THCA serÔ descarboxilado e convertido em THC. Isso irÔ proporcionar efeitos psicotrópicos e uma série de efeitos terapêuticos.
Estas sĆ£o duas diferentes experiĆŖncias com o mesmo princĆpio ativo.
Aquecer ou não aquecer
A regra bÔsica na hora de escolher é considerar se você vai aquecer o produto para consumi-lo ou não. Se você não vai aquecê-lo, os canabinoides listados nos testes de laboratório serão correspondente àqueles que você irÔ consumir. O THCA serÔ consumido como THCA; THC como THC; CBD como CBD, e assim por diante.
No entanto, se você aquecer o produto para consumi-lo, como é necessÔrio fazer no caso de flores, de óleos (que também pode ser consumido a frio) ou resinas, é mais provÔvel que você acabe produzindo, com o calor, o canabinoide que resulta do processo de descarboxilação. O THCA originalmente presente vai ser consumido como THC quando aquecido. O THC presente vai ser consumido como CBD quando esquentado. O CBDA como CBD, e por aà vai.
Em outras palavras, no caso de produtos que serĆ£o aquecidos, Ć© melhor ter nĆveis elevados do canabinoide precursor que vocĆŖ deseja consumir. Se nĆ£o for aquecido, como acontece com tinturas e comestĆveis prĆ©-preparados, vocĆŖ vai encontrar nos produtos os canabinoides reais que deseja consumir.
Ainda assim, dependendo do produto, você encontrarÔ resultados de testes apenas com THC, CBD e outras formas neutras de canabinoides. Isso pode ser um pouco confuso porque essas porcentagens de canabinoides neutros, na verdade, se referem à quantidade tanto da forma neutra do canabinoide quanto do Ôcido precursor. Como assim?
Testes apresentam nĆŗmeros estimados
Grande parte dos laboratórios de testes usam a cromatografia lĆquida de alto desempenho (HPLC) para seus testes. Este mĆ©todo nĆ£o usa o calor, entĆ£o as amostras nĆ£o sĆ£o descarboxiladas. Assim, ao trabalhar com HPLC, de forma geral os laboratórios āestimamā o nĆŗmero de canabinoides neutros que estarĆ£o no produto final após a descarboxilação. Assim, por exemplo, para estimar a quantidade de THC, os laboratórios adicionam nĆŗmeros do THC aos nĆŗmeros do THCA que foram multiplicados pelo fator de conversĆ£o para contabilizar o processo de descarboxilação. O nĆŗmero total vai ser reportado como THC, ainda que o maior volume seja de THCA. Se vocĆŖ considerar apenas os nĆŗmeros referentes aos elementos neutros listados no produto, e este nĆ£o for um comestĆvel jĆ” processado, vocĆŖ deve pressupor que a grande maioria dos canabinoides ainda estĆ” em sua forma Ć”cida.
Uma observação sobre os terpenos
Para produtos que vocĆŖ vai aquecer, leve em conta o efeito que a descarboxilação tem sobre os terpenos na cannabis. Estes componentes quĆmicos tendem a ter uma temperatura de evaporação mais baixa do que os canabinoides. Portanto, se vocĆŖ estĆ” tentando preservĆ”-los, temperaturas mais baixas sĆ£o melhores. Se vocĆŖ pretender vaporizar, deve ter em mente que temperaturas acima de 400°C podem fazer com que os terpenos se degradem, transformando-se em produtos quĆmicos com propriedades cancerĆgenas conhecidas. Portanto, Ć© melhor optar por temperaturas mais baixas.
Como descarboxilar para preparar comestĆveis?
Outro caso no qual a descarboxilação Ć© feita para o preparo dos comestĆveis.
A descarboxilação nĆ£o Ć© uma etapa necessĆ”ria caso vocĆŖ queira obter os efeitos dos canabinoides neutros. Conforme descrito acima, se a descarboxilação for ignorada ao se produzir um comestĆvel de THC, vocĆŖ prepararĆ” um comestĆvel com THCA, sem efeitos psicotrópicos ou terapĆŖuticos oferecidos pelo THC.
Para descarboxilar a cannabis no momento de preparar comestĆveis, a maioria das pessoas usa o forno para aquecer lentamente a cannabis atĆ© a temperatura necessĆ”ria.
Para isso, primeiro prĆ©-aqueƧa o forno. A temperatura pode variar dependendo de quanto tempo vocĆŖ āassarĆ”ā a cannabis e qual canabinoide vocĆŖ estĆ” esperando descarboxilar. Para transformar o THCA para THC, a temperatura padrĆ£o Ć© entre 105°C e 120°C.
Depois de aquecer o forno atƩ a temperatura ideal, parta sua cannabis em pequenos pedaƧos, coloque-a em uma assadeira e leve-a ao forno, deixando-a ali por cerca de 30 a 40 minutos.
O CBD descarboxila em uma temperatura mais alta. Assim, se você estÔ trabalhando com cannabis de alto teor de CBDA, aqueça seu forno a 140°C e deixe-a ali por cerca de 60 a 90 minutos.
Quando terminar de assar sua flor de cannabis, ela estarĆ” pronta para ser utilizada no preparo de comestĆveis.
(Traduzido por Wagner Vinicius Bordin)
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