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jan 1, 2020 4 min de leitura

O que sabe-se dos efeitos de longo prazo da cannabis

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por Janelle Lassalle
Homem idoso enrola um baseado

Enquanto milhões de pacientes em todo o mundo encontram alívio no uso da cannabis, muitos dos seus efeitos no longo prazo ainda são desconhecidos. Isso se deve principalmente à imposição de restrições no acesso à planta nas últimas décadas. O resultado é que, hoje em dia, estudos sobre esse aspecto ainda são extremamente incipientes.

O FDA conquistou a atenção do público no final de 2019 quando alertou que “o CBD pode prejudicar sua saúde”. A justificativa da agência federal foi: “Existem muitos aspectos importantes do CBD que simplesmente desconhecemos”.

Falando de fatos, foram realizadas pesquisas e algumas delas de indicam possíveis efeitos negativos no longo prazo.

Isso inclui alterações cerebrais em usuários adolescentes. Outros efeitos, como por exemplo como o CBD afeta a reprodução masculina ou o desenvolvimento de fetos, ainda estão sendo estudados. Muitos desses tópicos estão em estudo e, como tal, não são conclusivos.

Outro efeito colateral identificado pelos médicos é o risco relativamente pequeno, mas existente, de o usuário desenvolver dependência da cannabis.

Aqui segue mais um pouco sobre o que já sabemos do assunto.

Um Debate Acalorado

Muitos grupos e pesquisadores tentaram determinar de forma conclusiva os efeitos da cannabis à saúde no longo prazo. Um artigo científico resume bem esse esforço: “Embora vários estudos tenham relatado efeitos prejudiciais, outros não o fizeram, e a questão sobre a marijuana ser ou não prejudicial continua sendo objeto de acalorado debate”.

Uma análise de mais de 60 artigos científicos encontrou evidências de danos incluindo “…vários distúrbios de saúde mental, alterações cerebrais e cognitivas, consequências na gravidez e câncer testicular”. Os pesquisadores desse artigo sugeriram que certos grupos, particularmente “… mulheres grávidas, adolescentes e aqueles com risco ou doença mental estabelecida”, devem ter cuidado ao usar cannabis.

Obviamente, cada organismo responde à cannabis de maneira diferente e é por isso que ninguém pode dizer com total certeza como ela o afetará. Os fatores que influenciam a forma como a cannabis é metabolizada incluem idade, peso, metabolismo e antecedentes genéticos.

Distúrbios da Saúde Mental

A cannabis pode exacerbar certas condições de saúde mental em populações suscetíveis ou indivíduos vulneráveis. Uma população suscetível é definida como aquela que apresenta predisposição genética para uma determinada doença. Isso inclui pacientes com esquizofrenia e transtorno bipolar.

A correlação, no entanto, não implica causalidade. Um post publicado na Harvard Medical School explica que “até agora, esta pesquisa mostra apenas uma associação entre fumar maconha e desenvolver posterior psicose ou esquizofrenia. Isso não é o mesmo que dizer que a marijuana causa psicose”.

Um artigo científico que analisou estudos em humanos acerca de cannabis, psicose e esquizofrenia sugeriu que a probabilidade dessas reações era mínima.

Alterações Cerebrais e Resultados Cognitivos

A ideia de que a cannabis afeta a memória operacional, a atenção e a percepção não é, de forma alguma, nova. A medida em que a cannabis afeta cada uma delas, no entanto, varia.

De fato, o uso da cannabis entre os adolescentes é um tema que preocupa as comunidades. Em um estudo, usuários entre 13 e 18 anos tiveram desempenho “pior nos testes de atenção, aprendizado e memória”. Entre estes jovens, também foram encontradas evidências de motivação reduzida e, naqueles que usaram cannabis antes dos 15 anos, “desempenho inferior em tarefas de atenção constante, controle de impulsos e funções executivas”.

Essas mudanças comportamentais também podem afetar a estrutura do cérebro.

“Houve uma evolução considerável ​​na literatura médica na última década, mas o grau de comprometimento relacionado ao uso de marijuana na adolescência permanece inconclusivo”, lamentam os autores de “Efeitos da Cannabis no Cérebro Adolescente”.

Um estudo de longo prazo publicado em 2019, o qual analisou centenas de pares de gêmeos entre os quais apenas um usava cannabis, descobriu que o uso de cannabis parece não causar declínio cognitivo. Os autores do estudo, publicado na Drug and Alcohol Dependence, postularam que outros fatores (possivelmente genéticos ou ambientais) predispoem alguns adolescentes tanto ao uso da cannabis quanto à queda do QI na idade adulta.

Consequências na Gravidez

Um artigo científico de 2018 avaliou cinco análises sobre o uso de cannabis durante a gravidez. Entre os resultados, constatou-se que:

  • A anemia durante a gravidez foi relatada em seis estudos. Um deles mostrou chances aumentadas de anemia em mães usuárias de cannabis. Os outros cinco estudos não revelaram qualquer associação.
  • Há maior chance de ter o bebê internado em terapia intensiva neonatal.
  • Há maior disposição para desatenção e impulsividade aos 10 anos.
  • “Menor QI, aumento de erros por omissão, baixo desempenho acadêmico (especialmente em escrita e leitura).”

Os autores não observaram “nenhuma associação estabelecida com anomalias congênitas” e declararam que “é necessária mais pesquisa para determinar se existe alguma associação entre anemia materna e o uso de cannabis durante a gravidez”.

Câncer de Testículo

Uma avaliação de 2018 com foco nos efeitos adversos à saúde relacionados à cannabis analisou quatro estudos diferentes sobre o uso de cannabis e o câncer de testículo. Ela não encontrou evidências de danos relacionados aos cânceres de pulmão, cabeça e pescoço. Evidências de danos relacionados aos cânceres de bexiga, próstata, pênis, colo uterino e cânceres infantis foram inconclusivas.

O único tipo de câncer no qual os autores encontraram evidências de danos foi o câncer de testículo. Os usuários de cannabis apresentaram risco aumentado de câncer de testículo em comparação com aqueles que nunca haviam consumido cannabis. Isso foi expresso como uma probabilidade duas vezes e meia maior de desenvolver tumores de células germinativas testiculares sem seminoma (TGCTs) em usuários do que em não usuários. O mesmo estudo científico também determinou que existiam evidências inconclusivas sobre o desenvolvimento de tumores de seminoma.

Abuso de Cannabis

O uso de cannabis pode levar ao vício? Possivelmente. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) inclui o “transtorno por uso de cannabis” na última edição. É definido como “o uso continuado de cannabis apesar do prejuízo ao funcionamento psicológico, físico ou social”.

Estudos mostram que menos de 10% dos usuários de cannabis atendem aos critérios de dependência do DSM. Embora a cannabis possa não causar a forte dependência física de drogas mais pesadas como os opiáceos, ela pode se manifestar como uma dependência social e até levemente física. Os sintomas de dependência podem incluir irritabilidade, insônia e dores de cabeça.

O DSM usa nove padrões patológicos para definir o transtorno por uso de cannabis. Eles incluem: controle prejudicado, prejuízo social, comportamento de risco ou adaptação fisiológica.

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