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A Cannabis Pode Ajudar no Uso/Dependência de Opioides?

por Steven Ford

Sep 22, 2019

Visão Geral

Embora os estudos estejam longe de serem conclusivos, há sinais promissores de que a cannabis tem um papel importante a desempenhar no tratamento de vários problemas associados ao uso de opioides.

Por exemplo, estudos recentes apontam o uso da cannabis como uma forma eficaz de controlar as náuseas e a insônia relacionadas à abstinência de opioides. Foi demonstrado também que a cannabis alivia a dor que geralmente leva ao uso de opioides. Algumas pesquisas indicam que a cannabis pode servir, inclusive, para tratar o transtorno por uso de opioides (OUD, do inglês Opioid Use Disorder).

Muitos profissionais de saúde estão considerando cada vez mais a cannabis como parte de uma abordagem terapêutica para o tratamento de diversos problemas relacionados ao uso de opioides. Embora a quantidade de pesquisas ainda seja limitada, os resultados iniciais são encorajadores. As autoridades de saúde alertam, porém, que são necessárias mais pesquisas, principalmente estudos clínicos randomizados.

O Sistema Endocanabinoide

Para entender melhor como a cannabis pode ajudar os usuários de opioides, é importante analisar o sistema endocanabinoide (SE) do corpo humano e sua interação complexa com os elementos químicos dos opioides e da cannabis.

O SE (que só recentemente descobriu-se existir em todos os vertebrados) regula uma série de funções biológicas, sobretudo por meio da modulação da homeostase. Ele é composto por três partes principais: os canabinoides endógenos (também conhecidos como endocanabinoides, ou seja, canabinoides produzidos no corpo), os receptores aos quais os canabinoides se ligam (chamados CB1 e CB2) e enzimas que ajudam a sintetizar e decompor os endocanabinoides. Os receptores CB1 estão concentrados no sistema nervoso central, enquanto a maioria dos receptores CB2 se localiza no sistema imunológico.

Os canabinoides produzidos fora do corpo, como os fitocanabinoides (produzidos pelas plantas), também são capazes de interagir com o sistema endocanabinoide do corpo humano. Os fitocanabinoides são derivados de vários tipos de plantas, mas na Cannabis Sativa (maconha) sua quantidade chama atenção. Existem mais de 140 fitocanabinoides conhecidos na cannabis, mas o tetra-hidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) são os principais, em termos de concentração.

É importante observar que o sistema endocanabinoide é apenas um tipo de sistema neurotransmissor no corpo humano. Outro é o sistema opioidérgico, regulado pelos opioides, e os pesquisadores só agora estão começando a entender como os dois sistemas funcionam no controle da dor e da ansiedade, por exemplo, e como sua atuação pode aumentar ou diminuir o risco de abuso de drogas.

Dependência de Opioides e Cannabis

O número de pesquisas relacionadas à cannabis não é muito alto nos Estados Unidos por causa da classificação histórica da maconha como droga perigosa em 1937, dificultando os esforços nessa área. Com a crescente e recente aceitação da cannabis como droga legalizada e medicinal nos EUA, começa a aumentar o número de pesquisas, incluindo estudos sobre o uso da cannabis como ferramenta contra o abuso de opioides. Atualmente, diversos estudos observacionais, assim como algumas pesquisas clínicas e pré-clínicas, fornecem uma visão sobre os possíveis benefícios da cannabis.

Por exemplo, um relatório de 2018 do National Institutes of Health analisou a complexa interação entre os sistemas endocanabinoide e opioidérgico, e apontou a qualidade da cannabis como alternativa analgésica e de substituição aos opioides. Também relatou o alívio dos sintomas de abstinência dos opioides e a diminuição das recaídas. De acordo com o estudo, os receptores CB1 e os receptores opioides “mu” são distribuídos nas mesmas áreas do cérebro. Essa sobreposição biológica indica a interação entre os dois sistemas, especialmente no que se refere às respostas de recompensa emocional e outras atividades fisiológicas que podem influenciar na suspensão dos opioides.

Um estudo anterior realizado pela Universidade de Michigan em 2016 mostrou que o uso de cannabis medicinal está associado à diminuição do uso de opioides. Utilizando um questionário online, os pesquisadores conduziram um estudo retrospectivo transversal com 244 pacientes de cannabis medicinal que apresentaram dor crônica entre 2013 e 2015, concluindo que a cannabis pode ser um recurso essencial no tratamento dos sintomas de abstinência de opioides.

Um estudo de 2018, publicado pelo Howard University Hospital, sobre os efeitos da cannabis nos resultados do transtorno por uso de opioides revelou que um dos principais benefícios da maconha é que o CBD atua diretamente no controle das náuseas, uma das reações adversas mais comuns na suspensão de opioides. Os pesquisadores alertaram, no entanto, para o risco de desorientação e letargia produzidas pela cannabis no caso de alguns usuários.

Um estudo de 2019 também analisou como o CBD pode ser usado no tratamento de abuso de opioides. O estudo exploratório, duplo-cego e randomizado, controlado por placebo (publicado no The American Journal of Psychiatry), revelou que o canabidiol (CBD) pode reduzir o desejo e a ansiedade induzidos por estímulos, dois aspectos críticos da dependência, que geralmente contribuem para a recaída e o uso contínuo de drogas. É importante observar que o CBD foi investigado em pacientes viciados em heroína, mas os pesquisadores se afirmaram confiantes de que os mesmos dados se aplicam à dependência de outros tipos de opioides.

Além disso, um estudo canadense de 2018 publicado na publicação Addiction analisou a relação entre o uso da cannabis e as chances de um indivíduo se manter fiel a um programa de tratamento antiopioide. Ele concluiu que o uso diário da maconha foi um dos principais fatores de persistência nesse tipo de tratamento em Vancouver.

Embora um número cada vez maior de estudos explore o uso da cannabis no combate ao abuso de opioides, pelo menos um estudo, realizado em 2015, não encontrou evidências de redução dos sintomas de abstinência dos opioides em função do consumo de maconha (em forma de cigarro) após redução da dose de metadona.

Efeitos Colaterais

Acredita-se que a cannabis seja um tratamento medicamentoso seguro para uma série de casos. Não houve relato de mortes ao longo de toda a sua história.

A maioria dos efeitos colaterais relatada é de leve a moderada e inclui fadiga, sonolência, diarreia, vômito, perda de apetite e febre. Os efeitos colaterais de curto prazo do THC podem incluir perda de memória, falta de coordenação motora e desorientação. Os efeitos colaterais, a longo prazo, podem incluir comprometimento cognitivo, pequeno risco de dependência e maior risco de desenvolver um distúrbio psicótico.

Isenção de Responsabilidade

O conteúdo do site The Cannigma tem fins puramente informativos. Não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um médico profissional experiente com conhecimento em cannabis antes de iniciar um tratamento.

Sobre o Uso/Dependência de Opioides

Visão Geral

Opioides afetam o cérebro e o sistema nervoso, aliviando a dor e proporcionando, em alguns casos, sensação de euforia. Muitos analgésicos de prescrição legal, como oxicodona, codeína, morfina e fentanil, são compostos de ópio – além de, obviamente, drogas ilegais como heroína e ópio. A dependência a eles, também conhecida como transtorno por uso de opioides, é um distúrbio crônico.

O transtorno por uso de opioides se tornou uma epidemia nos Estados Unidos e em muitos outros países nas últimas duas décadas, e, a overdose tornou-se uma das principais causas de morte entre jovens. O problema tornou-se particularmente grave depois que médicos começaram a prescrever opioides como analgésicos; muitos pacientes desenvolveram tolerância e dependência, e partiram para drogas mais pesadas, como a heroína e o fentanil, nos casos em que não conseguiam prescrição médica para comprar opioides nas farmácias. Milhares de mortes nos Estados Unidos a cada ano estão diretamente relacionadas ao uso excessivo de opioides.

Cerca de 8 a 12% das pessoas que tomam opioides como medicamento desenvolvem transtorno por uso de opioides. Estima-se que mais de 2 milhões de americanos e 15 milhões de pessoas em todo o mundo sofram deste mal. O número de pessoas dependentes ou em risco de dependência de opioides na Europa é de cerca de 1,3 milhão.

É muito fácil se tornar dependente de opioides, porque os receptores sensoriais do sistema nervoso do cérebro se adaptam aos efeitos da droga, de modo que, com o tempo, a mesma dose não produza mais a necessária resposta física. Consequentemente, os pacientes precisam tomar doses cada vez mais altas para obter o mesmo resultado, o que configura o terreno perfeito para o vício. Depois de um período, o cérebro passa a depender dos opioides e sofre de abstinência quando o indivíduo pára de tomá-los ou até mesmo diminui a quantidade. A dependência é rapidamente criada: dependendo da pessoa, duas semanas são suficientes.

É importante observar a diferença entre dependência e vício de opioides. Um dependente precisa deles para aliviar a dor, mas isso não significa que sinta a necessidade compulsiva de continuar usando-os. Ele também sente os sintomas de abstinência quando para de usá-los, mas talvez não seja viciado.

O vício e a dependência de opioides podem surgir pelo uso de substâncias ilegais como heroína. No entanto, isso também é comum entre aqueles que seguem tratamentos prescritos pelo médico, sem nenhuma conexão com o estilo de vida de um viciado.

Sintomas

Quem sofre de transtorno por uso de opioides não consegue parar de tomá-los, não importa o esforço que faça. Viciados em opioides não seguem rigorosamente as orientações do médico sobre a posologia, e podem até ingerir mais do que desejam.

Vício

Às vezes é difícil diferenciar entre dependência e vício. Considera-se viciado mesmo aquele que que toma a prescrição determinada pelo médico, mas tornou-se obcecado pelo medicamento. Outros comportamentos comuns a viciados são: usar opioides de outros, apresentar obsessão em adquirir mais e negligenciar outras atividades para obter mais drogas.

Com o passar do tempo, o vício se torna mais forte, e o indivíduo passa a buscar opioides ilegais, como a heroína, para obter o efeito desejado. Essa droga pode ser misturada a outras substâncias, intensificando o vício ou levando à overdose.

Retirada

Viciados e dependentes de opioides sentem os mesmos sintomas de abstinência quando param de tomá-los. Entre eles estão:

  • Sudorese
  • Calores e calafrios
  • Náusea, vômito e diarreia
  • Desejo de mais da droga
  • Ansiedade e irritabilidade
  • Inquietação
  • Batimento cardíaco rápido e irregular
  • Insônia e sono conturbado
  • Tremores
  • Dor de cabeça e dores nos músculos e articulações

A gravidade dos sintomas depende de alguns fatores, como o estado geral de saúde da pessoa, há quanto tempo ela está usando opioides e se está parando abruptamente. Os sintomas de abstinência podem aparecer 12 horas após a última dose e duram de alguns dias a duas semanas.

Tratamento do Vício

É muito difícil parar de tomar opioides sozinho de maneira segura. A maioria das pessoas precisa de ajuda e apoio de um médico e/ou de uma equipe treinada. A boa notícia é que os programas de controle de abstinência são eficazes no tratamento do transtorno por uso de opioides.

São duas as etapas de tratamento:

  • Desintoxicação enquanto o medicamento sai da corrente sanguínea
  • Prevenção de recaídas depois da recuperação dos sintomas de abstinência

O foco principal da desintoxicação está no controle dos sintomas de abstinência, enquanto o cérebro se “reajusta” à função normal sem a ajuda de opioides. 

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