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A Cannabis Pode Aliviar a Fibromialgia?

Visão Geral

A fibromialgia é pouco compreendida e, portanto, tem sido desafiante desenvolver alguma terapia. Os tratamentos geralmente não são eficazes, fazendo com que os pacientes passem de uma terapia a outra, acumulando decepções e efeitos colaterais. Infelizmente, em geral as pessoas que têm fibromialgia apresentam reações adversas à medicação, a qual é tão limitada quanto as opções de tratamento.

Existe um interesse crescente pela cannabis de uso medicinal no tratamento da fibromialgia. Na China antiga, a planta já era usada para tratar cãibras e dores há 5.000 anos. Isto não se deve apenas aos seus efeitos sobre a dor (propriedades analgésicas), mas também ao seu potencial com relação a outros sintomas associados, como insônia, ansiedade e depressão

O Sistema Endocanabinoide

A cannabis contém mais de 500 compostos ativos, incluindo pelo menos 140 canabinoides – e esse número vem aumentando gradualmente nos últimos anos devido a novas pesquisas – que podem ter efeito sobre o corpo, interagindo e ativando o sistema endocanabinoide (SE). O SE está dividido em três partes principais: receptores distribuídos por todo o corpo, moléculas canabinoides que combinam com os receptores e os ativam, e enzimas metabólicas. Existem concentrações particularmente altas de receptores canabinoides nos sistemas nervoso e imunológico, nos ossos e articulações, áreas onde o SE exerce suas principais funções. O papel central das enzimas é o de sintetizar as moléculas que ativam o SE ou quebrá-las, impedindo-as de ativar os receptores.  

As moléculas de canabinoides que ativam o SE podem ser encontradas em três lugares diferentes: no interior do corpo, na planta de cannabis e no preparado farmacêutico.

Quando os canabinoides ocorrem naturalmente no corpo, eles são chamados de endocanabinoides (endo significa interior, em grego) e desempenham um papel importante na homeostase ou equilíbrio do corpo. Os endocanabinoides são produzidos pelo organismo em reação a diferentes tipos de estresse, incluindo físico e psicológico. As funções exatas do SE ainda estão sendo estudadas. 

Os outros canabinoides de ocorrência natural são aqueles presentes na planta Cannabis Sativa, conhecidos como fitocanabinoides. Suas moléculas mais estudadas são o tetra-hidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). Esses fitocanabinoides têm semelhanças com os endocanabinoides em sua capacidade de ativar o SE. 

Finalmente, os canabinoides também foram sintetizados sob a forma de preparados farmacêuticos. A maioria deles é feito com moléculas sintetizadas análogas ou quase idênticas ao THC como, por exemplo, o Nabilone, aprovado pelo FDA para uso nos Estados Unidos.

Até agora, dois receptores de canabinoides foram identificados, sendo provável que outros o sejam em futuras pesquisas. O receptor de canabinoide 1 (CB1) e o receptor de canabinoide 2 (CB2) podem ser ativados ao combinarem-se com moléculas de canabinoides – sejam endocanabinoides, fitocanabinoides ou canabinoides sintéticos. A combinação das moléculas e do receptor de canabinoide ativa vias de sinalização específicas dentro das células. Um dos resultados principais dessas vias de sinalização nas células é a diminuição da liberação de neurotransmissores. Como sinais primários do sistema nervoso, os neurotransmissores estão envolvidos em muitos processos, incluindo a percepção da dor e outras funções cerebrais, como sono e ansiedade. Os receptores CB1 estão localizados principalmente no sistema nervoso, tanto no cérebro como nos nervos periféricos que se estendem a partir da medula espinhal. Os receptores CB2, por outro lado, foram encontrados principalmente nas células do sistema imunológico e em diferentes tipos de células musculoesqueléticas. São esses efeitos sobre a dor, o sono e a ansiedade que podem ser úteis no controle dos sintomas da fibromialgia.

Fibromialgia e Cannabis

A pesquisa sobre cannabis de uso medicinal é relativamente nova, principalmente devido ao seu status legal – é muito difícil, senão impossível, realizar estudos médicos sobre substâncias ilícitas. Desde que ocorreram mudanças nos regulamentos em diferentes países, há um interesse crescente e um número cada vez maior de estudos sendo realizados. No entanto, como essa área de pesquisa ainda é relativamente recente, ainda não existem muitos dados sobre os efeitos da cannabis na fibromialgia.

Um recente estudo de alta qualidade, mas muito pequeno (estudo randomizado controlado por placebo), examinou o efeito analgésico (controle da dor) da cannabis de qualidade farmacêutica em 20 pacientes com fibromialgia. Os quatro grupos receberam cannabis com alto teor de THC e CBD mínimo, com THC e CBD equivalentes, com CBD alto e THC mínimo, ou placebo (sem THC ou CBD). Após o tratamento, os pacientes mediram os níveis espontâneos de dor (ou seja, a dor presente sem nenhum desencadeador óbvio) e foram submetidos a testes de dor (desta vez, provocada). Estatisticamente, os pacientes que receberam a combinação de CBD e THC apresentaram melhoras nos escores de dor nos testes por pressão induzida – com uma redução de 30% em comparação com o grupo do placebo. Nenhum dos tratamentos teve efeito sobre os níveis espontâneos de dor. A cannabis com CBD e sem THC não demonstrou efeitos nos níveis de dor.   

Dois outros ensaios controlados randomizados analisaram o efeito do canabinoide sintético Nabilone na fibromialgia. Um estudo comparou o tratamento do Nabilone com o de placebo e, o segundo, o Nabilone com a Amitriptilina (um antidepressivo tricíclico usado para a fibromialgia). O primeiro estudo forneceu evidências de qualidade baixa de que o canabinoide teria melhorado o controle da dor e a qualidade de vida. Não foi observado nenhum efeito sobre a fadiga ou a depressão. O estudo que comparou o Nabilone com a Amitriptilina encontrou evidências de qualidade baixa de melhora do sono no tratamento com canabinoides. Em contraste com o estudo anterior, não houve efeito na dor ou na qualidade de vida. 

Um estudo observacional maior com 367 pacientes, publicado recentemente, avaliou a cannabis medicinal que pode ter sido rica em THC ou CBD. Oitenta por cento dos pacientes relataram uma melhora em sintomas como o sono e depressão. Houve também melhorias significativas na dor e na qualidade de vida. Em termos de efeitos colaterais, os mais frequentes foram tonturas (8%), boca seca (7%), náusea e vômito (5%), e hiperatividade (5%). Um por cento dos pacientes relatou alucinações. Os resultados deste estudo parecem muito encorajadores. No entanto, é importante reconhecer que este é um teste de observação, significando que, em termos de metodologia, existem muitas questões em que os resultados podem ter sido afetados por outros fatores além do próprio tratamento. 

Em relação aos efeitos colaterais do tratamento com canabinoides: os mais significativos provocam efeitos imediatos na função motora e cognitiva que duraram até 5 horas. Além disso, fumar cannabis pode representar um fator de risco para o desenvolvimento de doenças respiratórias. O uso de cannabis também tem sido associado com psicose, paranoia e ansiedade, especialmente relacionadas ao THC. 

Até agora, a pesquisa atual demonstra evidências de qualidade baixa a média de que o tratamento com canabinoides, seja à base de plantas ou sintético, tenha um efeito benéfico em pessoas com fibromialgia. A evidência mais forte indica que esse efeito é causado pelo THC, em contraste com uma evidência limitada da eficácia do CBD. A pesquisa clínica sobre o tratamento com canabinoides é relativamente nova e a maioria dos estudos descritos é pequena. É provável que, com estudos maiores de qualidade alta, se tornem mais claros os efeitos do tratamento com canabinoides na fibromialgia.

Existem associações conhecidas entre fibromialgia, enxaquecas e síndrome do intestino irritável (SII). Foi sugerido que essas doenças/síndromes compartilham uma causa subjacente semelhante e que, portanto, todas elas podem ser tratadas com cannabis. A causa proposta é a deficiência de endocanabinoides. Há algumas pesquisas que descobriram níveis reduzidos de endocanabinoides em pacientes com enxaqueca e também em um estudo de modelos de camundongos com hipersensibilidade à dor. Há também dados crescentes mostrando que o SE pode exercer um papel no desenvolvimento da função gastrointestinal alterada. No entanto, atualmente não há estudos que examinem os níveis de endocanabinoides na fibromialgia ou na SII. Portanto, a deficiência de endocanabinoide ainda é uma teoria: há poucos dados e essa é uma área de pesquisa em andamento.

A fibromialgia é uma doença debilitante com tratamento limitado e, assim, a cannabis de uso medicinal pode ser uma nova opção de tratamento clínico. Apesar dos dados limitados, as pesquisas demonstram cada vez mais efeitos benéficos. A decisão de iniciar o tratamento deve ser tomada junto com o médico que o acompanha, depois de discutidos e considerados prós e contras.

Sobre a Fibromialgia

Visão Geral

A fibromialgia é uma doença crônica de longo prazo a qual provoca muitas vezes dor e sensibilidade generalizadas em grande parte do corpo. É considerada comum e afeta aproximadamente de 2 a 8% da população, afetando as mulheres duas vezes mais do que os homens.

Os sintomas da fibromialgia podem ser confundidos com os da artrite ou da inflamação das articulações. No entanto, diferentemente da artrite, não verificou-se casos em que a fibromialgia causa inflamação e danos nas articulações ou nos músculos. Ela é vista como uma doença que causa dor apenas no tecido mole ou miofascial. Os pacientes geralmente sofrem intensamente e recebem muitos tratamentos e terapias ineficazes, passando de um médico a outro em busca de uma solução. Ela afeta severamente a qualidade de vida e pode levar à depressão, ansiedade e a uma série de outros problemas de saúde.

Sintomas

Os sintomas da fibromialgia tendem a diferir de uma pessoa para outra. No entanto, um dos principais sintomas é a dor generalizada. Ela é sentida em todo o corpo, mas pode ser pior em certas áreas, como costas ou pescoço. A dor pode variar de intensidade e mudar de local, mas geralmente é crônica e debilitante. 

Os sintomas mais notáveis da fibromialgia incluem:

  • Sensibilidade extrema à dor em todo o corpo
  • Rigidez muscular
  • Espasmos musculares
  • Cansaço extremo (fadiga), que pode variar de leve sensação de cansaço à exaustão
  • Dificuldades cognitivas, muitas vezes descritas pelos pacientes como um “nevoeiro fibroso”, que podem atrapalhar o foco, atenção e concentração
  • Má qualidade do sono ou dificuldade em adormecer. O sono também pode ser perturbado devido a uma necessidade urgente de urinar, especialmente à noite

A fibromialgia geralmente coexiste com outros problemas de saúde dolorosos tais como:

  • Síndrome do intestino irritável
  • Enxaqueca e outros tipos de dor de cabeça
  • Distúrbios da articulação temporomandibular
  • Depressão e ansiedade
  • Problemas de sono

Outros sintomas menos comuns da fibromialgia são problemas de visão, cutâneos e respiratórios, náusea e tontura. Como resultado da consequente má qualidade de vida, os pacientes também relatam sintomas de depressão e ansiedade.

Causas

Os médicos ainda não sabem exatamente o que causa a fibromialgia, mas as pesquisas sugerem que pode haver uma interação entre fatores físicos, neurológicos e psicológicos. Parece que a combinação de dor, distúrbios do sono e ansiedade ou depressão pode se transformar em um círculo vicioso que leva à fibromialgia e vice-versa.

 

Outros fatores de risco são resultado do histórico médico da pessoa, como:

  • Infecções: doenças anteriores podem desencadear a fibromialgia ou piorar os sintomas.
  • Trauma: a doença foi associada ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), após ser observada em pessoas que sofreram trauma físico ou emocional.
  • Estresse: níveis altos de estresse têm sido associados a distúrbios hormonais que podem contribuir para a fibromialgia.
  • Idade: a fibromialgia pode surgir em qualquer idade, mas os sintomas geralmente aparecem por volta dos 30 anos e pioram com o tempo e sob estresse, de modo que a maioria das pessoas é diagnosticada na faixa dos 40 anos. O risco de desenvolver fibromialgia também aumenta com a idade.
  • Gênero: as mulheres têm duas vezes mais chances de ter fibromialgia do que os homens.
  • Outras doenças relacionadas: lúpus ou artrite reumatoide, entre outras.

 

Alguns pacientes também relatam “surtos” durante os quais seus sintomas são mais intensos, podendo ser desencadeados ou agravados por vários fatores, incluindo mudanças climáticas, esforço excessivo, viagens e alterações hormonais, entre outros.

Diagnóstico

Não há um teste único que possa diagnosticar seguramente a fibromialgia. Os cientistas até debatem se é possível um diagnóstico objetivo. No entanto, os médicos geralmente diagnosticam fibromialgia apoiando-se na história do paciente, exame físico, radiografias e exames de sangue.

 

Os critérios mais utilizados para o diagnóstico de fibromialgia são:

  • O paciente tem dor intensa em de 3 a 6 áreas de seu corpo ou dor leve em 7 ou mais áreas.
  • Os sintomas permaneceram num nível semelhante por pelo menos 3 meses.
  • Não foi encontrado nenhum outro motivo para os sintomas.

 

Não há testes de laboratório para confirmar o diagnóstico de fibromialgia e, portanto, o objetivo do exame de sangue é descartar outras doenças que possam ter sintomas semelhantes. De fato, a fibromialgia é um diagnóstico feito por eliminação, após serem descartados muitos outros problemas de saúde. Os exames de sangue podem incluir hemograma completo, taxa de sedimentação de eritrócitos, teste de peptídeo citrulinado cíclico, fator reumatoide e testes de função tireoidiana.

 

O médico também pode perguntar sobre seu histórico de saúde, procurando especificamente o nível de gravidade dos seguintes sintomas:

  • Fadiga
  • Sono não reparador
  • Problemas cognitivos (memória ou raciocínio)

Tratamento

Pacientes com fibromialgia geralmente são tratados por reumatologistas ou especialistas em dor. Os primeiros focam no tratamento de doenças de um sistema imunológico hiperativo que causa danos aos pacientes. Não há fortes evidências de que a fibromialgia seja uma doença do sistema imunológico (doença autoimune ou inflamatória). No entanto, existe uma associação significativa desta com doenças reumatológicas. Pacientes com doenças como artrite reumatoide e lúpus sistêmico têm mais probabilidades de desenvolver a fibromialgia do que a população em geral. Isso reforça a sugestão de que o sistema imunológico possa desempenhar um papel no desenvolvimento dessa doença. No entanto, a maioria dos pacientes com fibromialgia não apresenta doença reumatológica.  

Não há cura para a fibromialgia, mas existem maneiras de manter a qualidade de vida, controlando os sintomas, incluindo medicamentos, terapias alternativas e mudanças no estilo de vida. Nenhum tratamento funciona para todos os sintomas.

 

Terapia

Uma variedade de terapias pode ajudar a reduzir a dor que acompanha a fibromialgia. Formas comuns de terapia são:

  • Terapia física: o fisioterapeuta pode ensinar alguns exercícios, especialmente dentro d’água, que irão melhorar a força, a flexibilidade e a resistência do paciente.
  • Terapia ocupacional: um terapeuta ocupacional pode recomendar ajustes no ambiente de trabalho que reduzam o estresse no corpo do paciente.
  • Terapia psicológica: falar com um orientador psicológico pode aumentar a autoestima e ajudar o paciente a lidar com situações estressantes. Pode ser terapia comportamental cognitiva (TCC) ou psicoterapia. Grupos de apoio também podem ser úteis. 

 

Medicamentos

Os medicamentos podem ajudar a reduzir a dor da fibromialgia e melhorar o sono. Os médicos prescrevem principalmente:

  • Analgésicos: medicamentos que não exigem receita médica incluem acetaminofeno (Tylenol, Paracetamol), ibuprofeno (Advil, Motrin IB) ou naproxeno sódico (Aleve). Medicamentos mais fortes, como codeína ou tramadol, são considerados viciantes e seu efeito tende a enfraquecer com o passar do tempo.
  • Antidepressivos: duloxetina (Cymbalta) e milnaciprano (Savella) podem aliviar a dor e a fadiga associadas à fibromialgia. A amitriptilina ou o relaxante muscular ciclobenzaprina também podem melhorar a qualidade do sono, relaxando os músculos. No entanto, os antidepressivos podem causar muitos efeitos colaterais, incluindo tontura, ganho de peso e prisão de ventre.
  • Anticonvulsivos: medicamentos como gabapentina (Neurontin) ou pregabalina (Lyrica), geralmente prescritos para tratar epilepsia, podem ser comprovadamente úteis na redução de diferentes tipos de dor. Eles também causam uma série de efeitos colaterais que podem gerar distúrbios de tolerância em muitos pacientes.
  • Antipsicóticos: às vezes, quando muitos outros medicamentos falham, a quetiapina é administrada para ajudar no sono. Os efeitos colaterais podem incluir sonolência, tremores e inquietação.

 

Outras formas de tratamento:

  • Atividades dentro d’água: nadar, sentar ou se exercitar em uma piscina com ambiente aquecido ou de água morna (conhecida como hidroterapia ou balneoterapia).
  • Exercícios: um programa de exercícios individualizado. Infelizmente, eles muitas vezes exacerbam a dor daqueles que sofrem de fibromialgia.
  • Terapia alternativa: acupuntura, meditação, yoga, massagem terapêutica e mindfulness podem ajudar no relaxamento.
  • Programa alimentar: recomenda-se manter uma dieta equilibrada e saudável, rica em frutas e legumes. Beber muita água, comer mais vegetais que carne e reduzir a ingestão de açúcar também podem ajudar na redução dos sintomas.

Convivência com a Fibromialgia

Pessoas com fibromialgia precisam manter o equilíbrio –  isso significa saber quando ficar ativo e quando descansar, nunca exagerando ou pressionando demais, pois isso pode piorar os sintomas. Também é importante controlar os níveis de estresse, pois ele pode piorar os sintomas e levar à depressão. Os pacientes podem praticar técnicas de relaxamento por meio de exercícios físicos ou de rotina mental ensinados por livros, gravações e webinars relevantes.

Um dos aspectos mais difíceis de controlar é a qualidade do sono. A fibromialgia é conhecida por dificultar o sono ou o adormecer. Para dormir melhor, tente criar uma rotina na hora de deitar (como tomar um banho antes) e levante-se no mesmo horário todas as manhãs. Além disso, tente relaxar antes de ir para a cama, e evite cafeína, nicotina, álcool ou refeições pesadas à noite.

Home > Quadros Clinicos > Fibromialgia
339
10 min

A Cannabis Pode Aliviar a Fibromialgia?

por Dr. Daniela Garelick

Sep 22, 2019

Visão Geral

A fibromialgia é pouco compreendida e, portanto, tem sido desafiante desenvolver alguma terapia. Os tratamentos geralmente não são eficazes, fazendo com que os pacientes passem de uma terapia a outra, acumulando decepções e efeitos colaterais. Infelizmente, em geral as pessoas que têm fibromialgia apresentam reações adversas à medicação, a qual é tão limitada quanto as opções de tratamento.

Existe um interesse crescente pela cannabis de uso medicinal no tratamento da fibromialgia. Na China antiga, a planta já era usada para tratar cãibras e dores há 5.000 anos. Isto não se deve apenas aos seus efeitos sobre a dor (propriedades analgésicas), mas também ao seu potencial com relação a outros sintomas associados, como insônia, ansiedade e depressão

O Sistema Endocanabinoide

A cannabis contém mais de 500 compostos ativos, incluindo pelo menos 140 canabinoides – e esse número vem aumentando gradualmente nos últimos anos devido a novas pesquisas – que podem ter efeito sobre o corpo, interagindo e ativando o sistema endocanabinoide (SE). O SE está dividido em três partes principais: receptores distribuídos por todo o corpo, moléculas canabinoides que combinam com os receptores e os ativam, e enzimas metabólicas. Existem concentrações particularmente altas de receptores canabinoides nos sistemas nervoso e imunológico, nos ossos e articulações, áreas onde o SE exerce suas principais funções. O papel central das enzimas é o de sintetizar as moléculas que ativam o SE ou quebrá-las, impedindo-as de ativar os receptores.  

As moléculas de canabinoides que ativam o SE podem ser encontradas em três lugares diferentes: no interior do corpo, na planta de cannabis e no preparado farmacêutico.

Quando os canabinoides ocorrem naturalmente no corpo, eles são chamados de endocanabinoides (endo significa interior, em grego) e desempenham um papel importante na homeostase ou equilíbrio do corpo. Os endocanabinoides são produzidos pelo organismo em reação a diferentes tipos de estresse, incluindo físico e psicológico. As funções exatas do SE ainda estão sendo estudadas. 

Os outros canabinoides de ocorrência natural são aqueles presentes na planta Cannabis Sativa, conhecidos como fitocanabinoides. Suas moléculas mais estudadas são o tetra-hidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). Esses fitocanabinoides têm semelhanças com os endocanabinoides em sua capacidade de ativar o SE. 

Finalmente, os canabinoides também foram sintetizados sob a forma de preparados farmacêuticos. A maioria deles é feito com moléculas sintetizadas análogas ou quase idênticas ao THC como, por exemplo, o Nabilone, aprovado pelo FDA para uso nos Estados Unidos.

Até agora, dois receptores de canabinoides foram identificados, sendo provável que outros o sejam em futuras pesquisas. O receptor de canabinoide 1 (CB1) e o receptor de canabinoide 2 (CB2) podem ser ativados ao combinarem-se com moléculas de canabinoides – sejam endocanabinoides, fitocanabinoides ou canabinoides sintéticos. A combinação das moléculas e do receptor de canabinoide ativa vias de sinalização específicas dentro das células. Um dos resultados principais dessas vias de sinalização nas células é a diminuição da liberação de neurotransmissores. Como sinais primários do sistema nervoso, os neurotransmissores estão envolvidos em muitos processos, incluindo a percepção da dor e outras funções cerebrais, como sono e ansiedade. Os receptores CB1 estão localizados principalmente no sistema nervoso, tanto no cérebro como nos nervos periféricos que se estendem a partir da medula espinhal. Os receptores CB2, por outro lado, foram encontrados principalmente nas células do sistema imunológico e em diferentes tipos de células musculoesqueléticas. São esses efeitos sobre a dor, o sono e a ansiedade que podem ser úteis no controle dos sintomas da fibromialgia.

Fibromialgia e Cannabis

A pesquisa sobre cannabis de uso medicinal é relativamente nova, principalmente devido ao seu status legal – é muito difícil, senão impossível, realizar estudos médicos sobre substâncias ilícitas. Desde que ocorreram mudanças nos regulamentos em diferentes países, há um interesse crescente e um número cada vez maior de estudos sendo realizados. No entanto, como essa área de pesquisa ainda é relativamente recente, ainda não existem muitos dados sobre os efeitos da cannabis na fibromialgia.

Um recente estudo de alta qualidade, mas muito pequeno (estudo randomizado controlado por placebo), examinou o efeito analgésico (controle da dor) da cannabis de qualidade farmacêutica em 20 pacientes com fibromialgia. Os quatro grupos receberam cannabis com alto teor de THC e CBD mínimo, com THC e CBD equivalentes, com CBD alto e THC mínimo, ou placebo (sem THC ou CBD). Após o tratamento, os pacientes mediram os níveis espontâneos de dor (ou seja, a dor presente sem nenhum desencadeador óbvio) e foram submetidos a testes de dor (desta vez, provocada). Estatisticamente, os pacientes que receberam a combinação de CBD e THC apresentaram melhoras nos escores de dor nos testes por pressão induzida – com uma redução de 30% em comparação com o grupo do placebo. Nenhum dos tratamentos teve efeito sobre os níveis espontâneos de dor. A cannabis com CBD e sem THC não demonstrou efeitos nos níveis de dor.   

Dois outros ensaios controlados randomizados analisaram o efeito do canabinoide sintético Nabilone na fibromialgia. Um estudo comparou o tratamento do Nabilone com o de placebo e, o segundo, o Nabilone com a Amitriptilina (um antidepressivo tricíclico usado para a fibromialgia). O primeiro estudo forneceu evidências de qualidade baixa de que o canabinoide teria melhorado o controle da dor e a qualidade de vida. Não foi observado nenhum efeito sobre a fadiga ou a depressão. O estudo que comparou o Nabilone com a Amitriptilina encontrou evidências de qualidade baixa de melhora do sono no tratamento com canabinoides. Em contraste com o estudo anterior, não houve efeito na dor ou na qualidade de vida. 

Um estudo observacional maior com 367 pacientes, publicado recentemente, avaliou a cannabis medicinal que pode ter sido rica em THC ou CBD. Oitenta por cento dos pacientes relataram uma melhora em sintomas como o sono e depressão. Houve também melhorias significativas na dor e na qualidade de vida. Em termos de efeitos colaterais, os mais frequentes foram tonturas (8%), boca seca (7%), náusea e vômito (5%), e hiperatividade (5%). Um por cento dos pacientes relatou alucinações. Os resultados deste estudo parecem muito encorajadores. No entanto, é importante reconhecer que este é um teste de observação, significando que, em termos de metodologia, existem muitas questões em que os resultados podem ter sido afetados por outros fatores além do próprio tratamento. 

Em relação aos efeitos colaterais do tratamento com canabinoides: os mais significativos provocam efeitos imediatos na função motora e cognitiva que duraram até 5 horas. Além disso, fumar cannabis pode representar um fator de risco para o desenvolvimento de doenças respiratórias. O uso de cannabis também tem sido associado com psicose, paranoia e ansiedade, especialmente relacionadas ao THC. 

Até agora, a pesquisa atual demonstra evidências de qualidade baixa a média de que o tratamento com canabinoides, seja à base de plantas ou sintético, tenha um efeito benéfico em pessoas com fibromialgia. A evidência mais forte indica que esse efeito é causado pelo THC, em contraste com uma evidência limitada da eficácia do CBD. A pesquisa clínica sobre o tratamento com canabinoides é relativamente nova e a maioria dos estudos descritos é pequena. É provável que, com estudos maiores de qualidade alta, se tornem mais claros os efeitos do tratamento com canabinoides na fibromialgia.

Existem associações conhecidas entre fibromialgia, enxaquecas e síndrome do intestino irritável (SII). Foi sugerido que essas doenças/síndromes compartilham uma causa subjacente semelhante e que, portanto, todas elas podem ser tratadas com cannabis. A causa proposta é a deficiência de endocanabinoides. Há algumas pesquisas que descobriram níveis reduzidos de endocanabinoides em pacientes com enxaqueca e também em um estudo de modelos de camundongos com hipersensibilidade à dor. Há também dados crescentes mostrando que o SE pode exercer um papel no desenvolvimento da função gastrointestinal alterada. No entanto, atualmente não há estudos que examinem os níveis de endocanabinoides na fibromialgia ou na SII. Portanto, a deficiência de endocanabinoide ainda é uma teoria: há poucos dados e essa é uma área de pesquisa em andamento.

A fibromialgia é uma doença debilitante com tratamento limitado e, assim, a cannabis de uso medicinal pode ser uma nova opção de tratamento clínico. Apesar dos dados limitados, as pesquisas demonstram cada vez mais efeitos benéficos. A decisão de iniciar o tratamento deve ser tomada junto com o médico que o acompanha, depois de discutidos e considerados prós e contras.

Sobre a Fibromialgia

Visão Geral

A fibromialgia é uma doença crônica de longo prazo a qual provoca muitas vezes dor e sensibilidade generalizadas em grande parte do corpo. É considerada comum e afeta aproximadamente de 2 a 8% da população, afetando as mulheres duas vezes mais do que os homens.

Os sintomas da fibromialgia podem ser confundidos com os da artrite ou da inflamação das articulações. No entanto, diferentemente da artrite, não verificou-se casos em que a fibromialgia causa inflamação e danos nas articulações ou nos músculos. Ela é vista como uma doença que causa dor apenas no tecido mole ou miofascial. Os pacientes geralmente sofrem intensamente e recebem muitos tratamentos e terapias ineficazes, passando de um médico a outro em busca de uma solução. Ela afeta severamente a qualidade de vida e pode levar à depressão, ansiedade e a uma série de outros problemas de saúde.

Sintomas

Os sintomas da fibromialgia tendem a diferir de uma pessoa para outra. No entanto, um dos principais sintomas é a dor generalizada. Ela é sentida em todo o corpo, mas pode ser pior em certas áreas, como costas ou pescoço. A dor pode variar de intensidade e mudar de local, mas geralmente é crônica e debilitante. 

Os sintomas mais notáveis da fibromialgia incluem:

  • Sensibilidade extrema à dor em todo o corpo
  • Rigidez muscular
  • Espasmos musculares
  • Cansaço extremo (fadiga), que pode variar de leve sensação de cansaço à exaustão
  • Dificuldades cognitivas, muitas vezes descritas pelos pacientes como um “nevoeiro fibroso”, que podem atrapalhar o foco, atenção e concentração
  • Má qualidade do sono ou dificuldade em adormecer. O sono também pode ser perturbado devido a uma necessidade urgente de urinar, especialmente à noite

 

A fibromialgia geralmente coexiste com outros problemas de saúde dolorosos tais como:

  • Síndrome do intestino irritável
  • Enxaqueca e outros tipos de dor de cabeça
  • Distúrbios da articulação temporomandibular
  • Depressão e ansiedade
  • Problemas de sono

Outros sintomas menos comuns da fibromialgia são problemas de visão, cutâneos e respiratórios, náusea e tontura. Como resultado da consequente má qualidade de vida, os pacientes também relatam sintomas de depressão e ansiedade.

Causas

Os médicos ainda não sabem exatamente o que causa a fibromialgia, mas as pesquisas sugerem que pode haver uma interação entre fatores físicos, neurológicos e psicológicos. Parece que a combinação de dor, distúrbios do sono e ansiedade ou depressão pode se transformar em um círculo vicioso que leva à fibromialgia e vice-versa.

 

Outros fatores de risco são resultado do histórico médico da pessoa, como:

  • Infecções: doenças anteriores podem desencadear a fibromialgia ou piorar os sintomas.
  • Trauma: a doença foi associada ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), após ser observada em pessoas que sofreram trauma físico ou emocional.
  • Estresse: níveis altos de estresse têm sido associados a distúrbios hormonais que podem contribuir para a fibromialgia.
  • Idade: a fibromialgia pode surgir em qualquer idade, mas os sintomas geralmente aparecem por volta dos 30 anos e pioram com o tempo e sob estresse, de modo que a maioria das pessoas é diagnosticada na faixa dos 40 anos. O risco de desenvolver fibromialgia também aumenta com a idade.
  • Gênero: as mulheres têm duas vezes mais chances de ter fibromialgia do que os homens.
  • Outras doenças relacionadas: lúpus ou artrite reumatoide, entre outras.

 

Alguns pacientes também relatam “surtos” durante os quais seus sintomas são mais intensos, podendo ser desencadeados ou agravados por vários fatores, incluindo mudanças climáticas, esforço excessivo, viagens e alterações hormonais, entre outros.

Diagnóstico

Não há um teste único que possa diagnosticar seguramente a fibromialgia. Os cientistas até debatem se é possível um diagnóstico objetivo. No entanto, os médicos geralmente diagnosticam fibromialgia apoiando-se na história do paciente, exame físico, radiografias e exames de sangue.

 

Os critérios mais utilizados para o diagnóstico de fibromialgia são:

  • O paciente tem dor intensa em de 3 a 6 áreas de seu corpo ou dor leve em 7 ou mais áreas.
  • Os sintomas permaneceram num nível semelhante por pelo menos 3 meses.
  • Não foi encontrado nenhum outro motivo para os sintomas.

 

Não há testes de laboratório para confirmar o diagnóstico de fibromialgia e, portanto, o objetivo do exame de sangue é descartar outras doenças que possam ter sintomas semelhantes. De fato, a fibromialgia é um diagnóstico feito por eliminação, após serem descartados muitos outros problemas de saúde. Os exames de sangue podem incluir hemograma completo, taxa de sedimentação de eritrócitos, teste de peptídeo citrulinado cíclico, fator reumatoide e testes de função tireoidiana.

 

O médico também pode perguntar sobre seu histórico de saúde, procurando especificamente o nível de gravidade dos seguintes sintomas:

  • Fadiga
  • Sono não reparador
  • Problemas cognitivos (memória ou raciocínio)

Tratamento

Pacientes com fibromialgia geralmente são tratados por reumatologistas ou especialistas em dor. Os primeiros focam no tratamento de doenças de um sistema imunológico hiperativo que causa danos aos pacientes. Não há fortes evidências de que a fibromialgia seja uma doença do sistema imunológico (doença autoimune ou inflamatória). No entanto, existe uma associação significativa desta com doenças reumatológicas. Pacientes com doenças como artrite reumatoide e lúpus sistêmico têm mais probabilidades de desenvolver a fibromialgia do que a população em geral. Isso reforça a sugestão de que o sistema imunológico possa desempenhar um papel no desenvolvimento dessa doença. No entanto, a maioria dos pacientes com fibromialgia não apresenta doença reumatológica.  

Não há cura para a fibromialgia, mas existem maneiras de manter a qualidade de vida, controlando os sintomas, incluindo medicamentos, terapias alternativas e mudanças no estilo de vida. Nenhum tratamento funciona para todos os sintomas.

 

Terapia

Uma variedade de terapias pode ajudar a reduzir a dor que acompanha a fibromialgia. Formas comuns de terapia são:

  • Terapia física: o fisioterapeuta pode ensinar alguns exercícios, especialmente dentro d’água, que irão melhorar a força, a flexibilidade e a resistência do paciente.
  • Terapia ocupacional: um terapeuta ocupacional pode recomendar ajustes no ambiente de trabalho que reduzam o estresse no corpo do paciente.
  • Terapia psicológica: falar com um orientador psicológico pode aumentar a autoestima e ajudar o paciente a lidar com situações estressantes. Pode ser terapia comportamental cognitiva (TCC) ou psicoterapia. Grupos de apoio também podem ser úteis. 

 

Medicamentos

Os medicamentos podem ajudar a reduzir a dor da fibromialgia e melhorar o sono. Os médicos prescrevem principalmente:

  • Analgésicos: medicamentos que não exigem receita médica incluem acetaminofeno (Tylenol, Paracetamol), ibuprofeno (Advil, Motrin IB) ou naproxeno sódico (Aleve). Medicamentos mais fortes, como codeína ou tramadol, são considerados viciantes e seu efeito tende a enfraquecer com o passar do tempo.
  • Antidepressivos: duloxetina (Cymbalta) e milnaciprano (Savella) podem aliviar a dor e a fadiga associadas à fibromialgia. A amitriptilina ou o relaxante muscular ciclobenzaprina também podem melhorar a qualidade do sono, relaxando os músculos. No entanto, os antidepressivos podem causar muitos efeitos colaterais, incluindo tontura, ganho de peso e prisão de ventre.
  • Anticonvulsivos: medicamentos como gabapentina (Neurontin) ou pregabalina (Lyrica), geralmente prescritos para tratar epilepsia, podem ser comprovadamente úteis na redução de diferentes tipos de dor. Eles também causam uma série de efeitos colaterais que podem gerar distúrbios de tolerância em muitos pacientes.
  • Antipsicóticos: às vezes, quando muitos outros medicamentos falham, a quetiapina é administrada para ajudar no sono. Os efeitos colaterais podem incluir sonolência, tremores e inquietação.

 

Outras formas de tratamento:

  • Atividades dentro d’água: nadar, sentar ou se exercitar em uma piscina com ambiente aquecido ou de água morna (conhecida como hidroterapia ou balneoterapia).
  • Exercícios: um programa de exercícios individualizado. Infelizmente, eles muitas vezes exacerbam a dor daqueles que sofrem de fibromialgia.
  • Terapia alternativa: acupuntura, meditação, yoga, massagem terapêutica e mindfulness podem ajudar no relaxamento.
  • Programa alimentar: recomenda-se manter uma dieta equilibrada e saudável, rica em frutas e legumes. Beber muita água, comer mais vegetais que carne e reduzir a ingestão de açúcar também podem ajudar na redução dos sintomas.

Convivência com a Fibromialgia

Pessoas com fibromialgia precisam manter o equilíbrio –  isso significa saber quando ficar ativo e quando descansar, nunca exagerando ou pressionando demais, pois isso pode piorar os sintomas. Também é importante controlar os níveis de estresse, pois ele pode piorar os sintomas e levar à depressão. Os pacientes podem praticar técnicas de relaxamento por meio de exercícios físicos ou de rotina mental ensinados por livros, gravações e webinars relevantes.

Um dos aspectos mais difíceis de controlar é a qualidade do sono. A fibromialgia é conhecida por dificultar o sono ou o adormecer. Para dormir melhor, tente criar uma rotina na hora de deitar (como tomar um banho antes) e levante-se no mesmo horário todas as manhãs. Além disso, tente relaxar antes de ir para a cama, e evite cafeína, nicotina, álcool ou refeições pesadas à noite.

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