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A Cannabis Pode Ajudar na Doença de Parkinson?

por Roni Sharon, MD

Sep 11, 2019

Visão Geral

Graças à descoberta do sistema endocanabinoide, os pesquisadores hoje em dia têm uma compreensão muito mais ampla da interação e comunicação das substâncias químicas no cérebro, além de saberem o que acontece quando o corpo não produz neurotransmissores suficientes para interagir com seus receptores correspondentes.

Atualmente, muitos pesquisadores atribuem ao sistema endocanabinoide a manutenção das funções de homeostase, o equilíbrio interno necessário para a sobrevivência dos organismos vivos. É o processo de homeostase que mantém outros processos internos, como o equilíbrio de fluidos, níveis de açúcar no sangue e temperatura, dentro de um intervalo estabelecido.

Os mensageiros do sistema endocanabinoide são chamados de canabinoides. Os dois principais endocanabinoides produzidos no organismo, a anandamida e o 2-AG (2-araquidonilglicerol), são chamados de endocanabinoides, porque o prefixo endo significa “interno”. Os receptores endocanabinoides correspondentes localizados em todo o corpo são denominados simplesmente CB1 e CB2. Os receptores CB1 estão concentrados no cérebro e na medula espinhal, enquanto os receptores CB2 são encontrados em maior quantidade no sistema nervoso periférico e no sistema imunológico. Eis algumas das muitas funções reguladas pelo sistema canabinoide:

  • Neuroproteção
  • Movimento muscular
  • Energia e metabolismo
  • Percepção da dor e da inflamação
  • Função cardiovascular
  • Processos digestivos
  • Função do sistema imunológico
  • Humores e emoções
  • Sono e ciclos de sono

Os mensageiros do sistema endocanabinoide interagem com os receptores endocanabinoides, desencadeando uma resposta do cérebro. A natureza da resposta é determinada pela composição química da mensagem recebida.

O Sistema Endocanabinoide

Em condições ideais, o corpo produz todos os canabinoides necessários para manter esse sistema regulatório essencial funcionando eficientemente. No casos de doenças, lesões ou estresse, a demanda por endocanabinoides pode exceder a oferta, criando uma deficiência de endocanabinoides.

Hoje, muitos pesquisadores acreditam que as deficiências endocanabinoides são responsáveis ​​por diversos quadros clínicos de difícil tratamento, incluindo enxaqueca, fibromialgia, síndrome do intestino irritável e distúrbios neurodegenerativos, levantando questões sobre o potencial terapêutico dos canabinoides derivados de plantas para a Doença de Parkinson.

Os receptores do sistema endocanabinoide também respondem aos canabinoides vegetais da cannabis. Os fitocanabinoides da cannabis reproduzem os efeitos dos canabinoides produzidos no corpo, podendo aliviar os efeitos da deficiência de endocanabinoides. Os pesquisadores logo constataram que os fitocanabinoides das plantas de maconha, sobretudo o CBD (canabidiol), também influenciam em vários receptores não endocanabinoides, incluindo:

  • Receptores de Dopamina

A dopamina é um neurotransmissor liberado pelos neurônios para enviar sinais a outras células nervosas quando um receptor CB1 é estimulado. O cérebro possui várias vias de dopamina que regulam o movimento muscular, o comportamento, a cognição e a percepção de prazer e dor. De acordo com as pesquisas, o CBD aumenta a produção de dopamina ativando o receptor 6 acoplado à proteína G (GPR6).

  • Receptores GABA

O ácido gama-aminobutírico (GABA, do inglês Gamma-aminobutyric acid) é um neurotransmissor que bloqueia os impulsos entre as células nervosas. Quando os receptores GABA são ativados pelo neurotransmissor, a excitabilidade entre os impulsos nervosos hiperativos é reduzida substancialmente. O efeito nos receptores GABA é o que pode explicar o interesse em produtos de cannabis medicinal, pelo seu potencial de minimizar os tremores associados à Doença de Parkinson.

O CBD também é um poderoso antioxidante que, segundo os pesquisadores, contribui para as propriedades neuroprotetoras da cannabis. Os antioxidantes podem ser particularmente benéficos para quem vive com distúrbios neurodegenerativos, inclusive a Doença de Parkinson. Embora os relatórios preliminares sejam promissores, é importante observar que ainda é necessário realizar uma quantidade significativa de pesquisas para avaliar todos os riscos, benefícios e aplicações clínicas da cannabis de uso medicinal.

Parkinson e Cannabis

O grande número de canabinoides vegetais da cannabis, particularmente o canabinoide não psicoativo CBD, pode exercer grande influência no funcionamento do sistema nervoso. Ao interagir com receptores fundamentais em todo o organismo, o CBD apresenta propriedades analgésicas, antieméticas, antiespasmódicas, anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Os mecanismos de interação ainda não foram totalmente compreendidos, por conta da abrangência do tratamento, mas os especialistas acreditam que as  propriedades antioxidantes e neuroprotetoras da cannabis sejam benéficas para quem tem distúrbios de movimento neurodegenerativos. Embora o potencial terapêutico da cannabis medicinal seja promissor, as pesquisas iniciais mostram resultados contraditórios. Vejamos os seguintes exemplos:

  • Um ensaio clínico aberto sobre o CBD foi realizado em seis pacientes com Parkinson com sintomas de psicose parkinsoniana. Todos os seis pacientes encontraram melhora dos sintomas psicóticos, confirmando as propriedades antipsicóticas do CBD. Os mesmos resultados foram relatados por pacientes de Parkinson com transtorno comportamental do sono REM. Em doses mais altas, o CBD mostra o potencial de retardar a progressão da distonia, a contração muscular involuntária.
  • Os pesquisadores dividiram 21 pacientes de Parkinson em três grupos: um grupo de controle, um grupo tratado com 75 mg de CBD por dia e um terceiro grupo tomando 300 mg por dia. Os participantes foram avaliados uma semana antes do início do estudo em relação aos sintomas motores e gerais, bem-estar e qualidade de vida. Embora o estudo não tenha apresentado diferenças significativas quanto aos sintomas gerais, os resultados relacionados ao bem-estar melhoraram consideravelmente no caso daqueles que tomavam CBD. O estudo sugere, portanto, que o CBD tem o potencial de melhorar a qualidade de vida das pessoas com Doença de Parkinson, mas os pesquisadores ressaltaram que devem ser realizados estudos adicionais com mais pacientes antes de chegar a qualquer conclusão.
  • Durante um período experimental de 31 dias, os pacientes receberam uma dose diária de CDB cada vez maior, com a dose mais alta no 17º dia do estudo. Dos indivíduos que completaram o estudo, a pontuação referente a problemas clínicos diminuiu de 45,9 para 36,4, a pontuação referente a problemas motores diminuiu de 27,3 para 20,3 e a pontuação referente a problemas de rigidez diminuiu de 9,14 para 6,29, segundo a Escala Unificada de Avaliação da Doença de Parkinson (UPDRS, Unified Parkinson’s Disease Rating Scale). Os dados também indicam que o CBD reduz a irritabilidade e a dor.

Ao considerar pesquisas e relatórios sobre o potencial terapêutico da cannabis medicinal, é importante ter em mente que existem duas fontes distintas de CBD, a marijuana e o cânhamo. As plantas são classificadas pelo seu conteúdo de THC. Embora o THC (tetra-hidrocanabinol) tenha efeitos psicotrópicos, também já foi demonstrado que ele funciona de maneira semelhante ao CDB no alívio de espasmos e dores musculares. Muitos consideram os efeitos combinados do THC e do CBD superiores aos efeitos do CBD isolado.

Em uma pesquisa com 84 pacientes de Parkinson usando cannabis, mais de 46% tiveram uma melhora leve ou substancial de seus sintomas. A Parkinson’s Foundation (Fundação Parkinson) observa que, na maioria dos ensaios com maconha medicinal, os participantes recebem cápsulas, tinturas ou sprays nasais contendo uma combinação de CBD e THC ou CBD isolado.

Transtornos de Função e Movimento do SE

Durante suas investigações, os pesquisadores descobriram funções do sistema endocanabinoide alteradas naqueles que vivem com vários transtornos de movimento, incluindo a Doença de Parkinson. Como existe um grande número de receptores canabinoides em áreas do cérebro que controlam o movimento, os pesquisadores se concentram na capacidade dos canabinoides vegetais de se ligar aos receptores dos gânglios da base (e outros) para deter o avanço da doença ou aliviar seus sintomas.

Um número significativo de estudos explorou o papel dos canabinoides, particularmente os efeitos do CBD, que reproduz os efeitos dos endocanabinoides produzidos no corpo, desencadeando uma resposta dos receptores endocanabinoides. É a interação com os receptores endocanabinoides e vários receptores não endocanabinoides que explicam as propriedades anti-inflamatórias, analgésicas, antieméticas, ansiolíticas, antiespasmódicas e neuroprotetoras da cannabis.

Pesquisas também sugerem que os efeitos do CBD podem ser intensificados pelos canabinoides adicionais encontrados naturalmente na maconha, incluindo o THC. A intensificação dos efeitos combinados desses canabinoides adicionais, menos conhecidos, é chamada de efeito entourage.

Enquanto investigações preliminares sugerem que o controle da sinalização de canabinoides pode melhorar significativamente os sintomas, 13 ensaios apresentaram resultados diversos. De qualquer maneira, pesquisas com pacientes e relatórios informais indicam que a maconha tem o potencial de melhorar os sintomas motores e não motores da Doença de Parkinson. Como os produtos de cannabis podem interagir com vários medicamentos, é importante consultar um profissional de saúde antes de usar maconha ou produtos derivados de cânhamo.

Sobre a Doença de Parkinson

Sintomas

Os sintomas da Doença de Parkinson normalmente começam leves e às vezes passam despercebidos (estima-se que um em cada quatro casos seja diagnosticado incorretamente). Além disso, a ordem na qual os sintomas se desenvolvem, bem como sua gravidade, difere de um indivíduo para outro. De qualquer modo, os sintomas geralmente começam de um lado do corpo ou mesmo em um único membro. Com o avanço da doença, os dois lados são afetados, mesmo que em intensidades diferentes.

É improvável que uma pessoa com Parkinson apresente todos os sintomas listados abaixo ao mesmo tempo, mas os três primeiros são os mais comuns:

  • Tremor: pessoas com Parkinson relatam tremor, que geralmente começa na mão ou no braço,  com maior frequência quando o membro está descansando.
  • Lentidão de movimento (bradicinesia): os movimentos ficam muito mais lentos do que o normal, o que dificulta a realização das atividades diárias mais básicas.
  • Rigidez muscular: a tensão nos músculos prejudica a movimentação e até as expressões faciais, podendo produzir cãibras musculares dolorosas (distonia). Pessoas com Parkinson, portanto, costumam desenvolver a chamada “marcha parkinsoniana”, uma maneira de andar com pequenos passos rápidos e o tronco inclinado para frente.
  • Instabilidade postural: geralmente se manifesta como quedas repetidas, o que pode causar lesões graves.

Como resultado desses sintomas, e além deles, as pessoas com Parkinson podem apresentar uma série de outros sintomas físicos e mentais.

Sintomas Físicos

Por causa da lentidão e dos tremores, as pessoas com Parkinson costumam ter dificuldade de manter o equilíbrio, estando sujeito a queda e lesões. Elas também podem sentir tonturas, apresentar visão turva ou desmaiar ao tentar levantar-se, devido à queda repentina da pressão arterial.

O mal de Parkinson também pode causar dor nos nervos. Um indivíduo com Parkinson pode ter sensações desagradáveis, como queimação ou dormência. Por outro lado, a Doença de Parkinson também provoca perda de olfato (anosmia), às vezes muitos anos antes do aparecimento dos outros sintomas.

Os parkinsonianos também podem ter disfunção sexual, além de superprodução de saliva (baba), sudorese excessiva (hiperidrose) e dificuldade de engolir (disfagia), o que pode levar à desnutrição e desidratação.

Pessoas com Parkinson costumam ter problemas para dormir (insônia), que podem causar fadiga durante o dia. O sono geralmente é interrompido por micção frequente à noite (incontinência urinária), bem como pela constipação.

Sintomas Cognitivos e Psicológicos

Às vezes, pessoas com Parkinson apresentam sintomas de depressão e ansiedade, além de obesidade de meia-idade.

Fora isso, sabe-se que o mal de Parkinson compromete as funções cognitivas. Isso pode se manifestar como problemas de memória e dificuldade no gerenciamento de atividades que requerem planejamento. A demência também pode ser observada como um grupo de sintomas caracterizado por problemas de memória mais graves, alterações de personalidade e até mesmo paranoia e alucinações (psicose).

Causas

A Doença de Parkinson provoca a perda de células nervosas em uma parte do cérebro chamada “substância negra”. Como essa parte do cérebro é responsável pelo movimento, quando as células param de produzir dopamina, um importante neurotransmissor, há uma perda gradual de controle sobre os movimentos do corpo, resultando em lentidão, rigidez e tremores.

Os cientistas não sabem ao certo o que causa a morte das células nervosas. No entanto, estudos indicam que este é um processo lento. Os primeiros sintomas de Parkinson aparecem somente quando cerca de 80% das células nervosas da substância negra já se perderam.

Além disso, vários fatores de risco podem desencadear os sintomas de Parkinson:

  • Fatores ambientais: existe um risco moderado de desenvolver Parkinson devido à exposição a pesticidas, e também é possível minimizar as chances de ter a doença evitando cigarros.
  • Genética: pessoas com um parente de primeiro grau com Parkinson têm 15% mais chances de desenvolver a doença. Além disso, uma mutação em um dos vários genes específicos foi detectada em cerca de 5 a 10% das pessoas diagnosticadas com Parkinson, enquanto na população não afetada essa mutação aparece em menos de um 1% das pessoas.
  • A presença de Corpos de Lewy: corpos de Lewy são aglomerados de substâncias específicas dentro das células cerebrais, considerados marcadores da Doença de Parkinson. Embora não se saiba ao certo que papel eles desempenham no desenvolvimento da doença, os pesquisadores acreditam que os Corpos de Lewy podem contribuir para a descoberta da causa do mal de Parkinson.

Diagnóstico

Nenhum teste pode confirmar a Doença de Parkinson. Portanto, o médico baseará o diagnóstico no relato de sintomas do paciente, assim como no histórico médico e no exame físico detalhado.

Na maioria das vezes, se o paciente descreve pelo menos dois destes sinais principais:

  • Tremor ou agitação
  • Membros rígidos
  • Movimento lento
  • Quedas frequentes (as lesões causadas pelas quedas às vezes são a razão da primeira consulta ao médico)
  • O foco dos sintomas em um lado do corpo

O médico pode pedir ao paciente que tome carbidopa/levodopa, associação medicamentosa que ajuda o cérebro a produzir dopamina, permitindo um melhor controle do sistema nervoso e, portanto, dos movimentos do corpo. Se os sintomas melhorarem após o uso da medicação, isso é um indicador de que o paciente tem a Doença de Parkinson.

Existem vários exames específicos para detectar a causa dos sintomas, entre eles:

  • DaTscan: teste de imagem que utiliza uma pequena quantidade de medicamento radioativo e um scanner especial para verificar a quantidade de dopamina presente no cérebro.
  • TC (tomografia computadorizada): usa raios X e computadores para produzir imagens do interior do corpo, incluindo o cérebro.
  • IRM (imagem por ressonância magnética): produz imagens do corpo com o uso de um grande ímã, ondas de rádio e um computador para converter os dados em imagens.

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