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Cannabis Pode Ajudar a Tratar Vícios?

por Emily Earlenbaugh, PhD.

Dec 25, 2019

A cannabis pode ajudar quem sofre de dependência? Há muitas pesquisas sugerindo que ela tem, sim, potencial para ajudar pessoas com transtornos por abuso de substâncias. Alguns centros de tratamento inclusive já a adotaram com esse fim.

Estudos em animais mostram que o sistema endocanabinoide desempenha um papel central na dependência de drogas. Portanto, teoricamente, a modulação desse sistema com cannabis poderia ajudar aqueles em processo de abstinência.

Ademais, também existem evidências em pesquisas com seres humanos sugerindo que a cannabis pode ajudar pessoas com diferentes vícios a encontrar um caminho mais fácil para a recuperação.

Mais pesquisas são necessárias, no entanto, antes que possamos tirar conclusões sobre a eficácia e os métodos de utilização da cannabis no tratamento da dependência.

Outra questão relevante na relação entre “cannabis e dependência” é o fato de a própria planta apresentar potencial de desenvolvimento de vício em 10% de seus usuários. Além disso, é uma droga psicotrópica e, por essa razão, muitos profissionais que atuam junto a dependentes químicos tendem a enxergá-la como um tratamento indesejável para outros transtornos por abuso de substâncias.

Como a Cannabis Atua na Dependência

O sistema endocanabinoide está presente em todos os vertebrados e ajuda a regular funções cruciais como sono, dor e apetite. O corpo produz seus próprios endocanabinoides, os quais modulam e ativam diferentes funções corporais. No entanto, como o próprio nome sugere, o sistema endocanabinoide também pode ser modulado e ativado por canabinoides encontrados na planta da cannabis. Como todo o sistema foi descoberto há cerca de apenas 30 anos, os cientistas ainda têm muito a aprender sobre as inúmeras maneiras através das quais a cannabis influencia o organismo humano.

O sistema endocanabinoide está intimamente envolvido e desempenha papel crucial no processo neurobiológico subjacente à dependência de drogas. Os endocanabinoides e seus receptores se manifestam nas principais áreas do cérebro que participam na iniciação e na continuidade do consumo de drogas, bem como no desenvolvimento da compulsão e da perda de controle em sobre o vício.

Além disso, o sistema endocanabinoide interage com os sistemas opioidérgicos, relacionados ao vício e à recompensa cerebral. Os receptores para ambos os sistemas são encontrados em muitas das mesmas áreas do cérebro e são frequentemente ativados ao mesmo tempo. Pesquisas sobre essa interação descobriram uma relação bidirecional entre receptores nestes sistemas quando se trata das sensações de recompensa propiciada pelas drogas.

O bloqueio de uma das duas principais atividades do receptor endocanabinoide em ratos reduziu significativamente os efeitos recompensadores da morfina. Da mesma forma, o bloqueio do receptor de opioide pode reduzir esses mesmos efeitos do THC. Portanto, é provável que o sistema endocanabinoide e os sistemas opioidérgicos estejam envolvidos na criação das sensações agradáveis ​​e recompensadoras associadas ao uso de drogas.

Adicionalmente, um estudo em humanos descobriu que um dos principais receptores endocanabinoides é suprarregulado entre os usuários de opioides, o que apóia a tese de que o sistema endocanabinoide é importante para o desenvolvimento da dependência desse elemento.

Estudos Médicos sobre Dependência e Cannabis

Embora esteja claro que o sistema endocanabinoide está altamente envolvido nos processos subjacentes ao vício, isso por si só não nos diz se a cannabis pode ajudar aqueles que sofrem de dependência. Há, no entanto, uma quantidade razoável de pesquisas que analisam exatamente essa questão.

Uma maneira pela qual a cannabis pode ajudar é como um substituto para outras substâncias viciantes com um perfil de segurança pior do que o da cannabis. Os pesquisadores observaram que, quando os pacientes usam cannabis e opioides juntos, eles tendem a diminuir o uso do segundo em 40-60%, além de relatar menos efeitos colaterais negativos, melhor função cognitiva, melhor qualidade de vida e preferência pela cannabis em relação aos opioides. Outros estudos mostraram que a cannabis pode reduzir a quantidade de opioides necessários para atingir o nível desejado de alívio da dor. Uma teoria defende que isso ocorre devido ao efeito sinérgico entre a cannabis e os opioides, o que resulta em um maior alívio da dor quando agem juntos do que com qualquer um deles individualmente.

Há também algumas evidências de que a cannabis possa ajudar a aliviar os sintomas de abstinência de opioides, resultando em maiores taxas de sucesso no esforço de retirada. Outra pesquisa sugere que ela poderia, na verdade, aumentar a gravidade dos sintomas de abstinência. É possível que resultados conflitantes na pesquisa possam ser explicados por diferenças da espécie de cannabis usada.

Um estudo clínico descobriu que altas doses de CBD ajudaram os pacientes em abstenção de heroína a reduzir em mais de 75% os desejos e a ansiedade que ocorrem em reação a sinais relacionados à droga. O efeito ocorreu imediatamente uma hora após a ingestão do CBD e durou até sete dias. Como o CBD é considerado extremamente seguro e não viciante, pode ser um excelente complemento para apoiar os esforços de abstenção.

Embora a maioria das pesquisas sobre cannabis e dependência se concentrem em opioides, seus benefícios também podem se estender a outras drogas. Estudos sugerem que a cannabis e seus compostos podem ser úteis no tratamento de problemas de dependência de muitas substâncias, incluindo tabaco, álcool e cocaína.

Outro estudo clínico em fumantes que tentaram abandonar o tabaco descobriu que o uso de CBD ajudou a reduzir significativamente o número de cigarros fumados em 40%.

Um estudo sobre o uso de CBD com álcool constatou que o consumo de CBD e álcool juntos resultava em níveis significativamente mais baixos de álcool no sangue do que aqueles apresentados por quem usavam o álcool sozinho. Isso sugere que o CBD pode oferecer proteção ao organismo ao diminuir o impacto da intoxicação por álcool.

Um estudo sobre dependência comórbida de cocaína em pacientes com TDAH (os quais estavam em tratamento ambulatorial por dependência de cocaína) apontou que aqueles que também incluíram a cannabis no tratamento tiveram maiores taxas de sucesso no programa.

Ainda assim, são necessárias mais pesquisas para entender a maneira mais eficaz de se trabalhar com a cannabis, a fim de obter esses benefícios.

Se você deseja usar cannabis para seu próprio processo de abstinência, trabalhar com um médico especialista em canabinoides é a melhor maneira de obter orientação e suporte personalizados.

Efeitos Colaterais

Apesar do potencial positivo da cannabis no apoio à luta contra a dependência de drogas, a planta apresenta potenciais efeitos colaterais que podem afetar o tratamento. Em geral, os efeitos colaterais da cannabis são modestos, mas podem incluir sintomas como dificuldades sutis de concentração e memória, leve tontura, coração acelerado, boca seca, náusea e fadiga.

No tocante à eliminação do vício, a cannabis pode apresentar também outras questões. Por um lado, as propriedades elevadoras  do humor e recompensadoras da cannabis significam que ela também pode se tornar viciante para alguns, levando à tolerância, dependência física e sintomas de abstinência durante sua retirada, como irritabilidade, agressão, ansiedade, diminuição do apetite, perda de peso e dificuldades para dormir. Ainda assim, esses sintomas são substancialmente menos desafiadores do que aqueles associados ao vício e à abstinência de opioides.

Outros relataram que a cannabis, na verdade, aumentou a gravidade de seus sintomas durante a retirada dos opioides. Esses conflitos reportados podem ocorrer devido à variação nos tipos de cannabis ou a variações nas respostas dos pacientes. Ainda assim, é um fator de risco a se considerar ao se empregar cannabis no tratamento da dependência.

Sobre o Vício

Visão Geral

O vício é uma condição séria e complexa que afeta todas as áreas da vida e da saúde em geral. Às vezes, é chamado de transtorno por uso de substâncias ou transtorno por abuso de substâncias. Dependência significa que você não pode controlar o quanto ou quantas vezes toma, usa ou ingere algo.

Quando as pessoas falam em dependência, geralmente imagina-se tratar de álcool, drogas legais ou ilegais ou nicotina. Esses são os tipos mais comuns de dependência, mas você pode se tornar viciado em muitas coisas, incluindo trabalho, compras, alimentos, uso da Internet e pornografia. Ou seja, em praticamente qualquer coisa.

É difícil saber quantas pessoas são viciadas em algo. Acredita-se que 164 milhões de pessoas em todo o mundo assumiram algum tipo de dependência, seja de álcool ou outras substâncias, em 2016; há dados mostrando que 19,7 milhões de americanos apresentaram algum tipo de transtorno por abuso de substâncias em 2017. Estudos mostram que a dependência de álcool e de substâncias é maior em algumas partes do mundo, com 5-6% das pessoas nos EUA e na Europa Oriental sofrendo de dependência, 2-5% das pessoas na Europa Ocidental e Central e no resto das Américas, enquanto 1-2% das pessoas na Ásia, África e Oriente Médio.

Sintomas

Embora cada tipo de dependência seja diferente, elas compartilham características semelhantes, especialmente as mais comuns, como álcool, nicotina e substâncias legais e ilegais. O vício afeta todos os aspectos da vida, incluindo saúde, comportamento e processos mentais. Também é bastante associada a outras condições de saúde mental que são comumente encontradas em pessoas que sofrem de dependência.

É provável que você passe muito tempo pensando sobre a substância ou a atividade viciante, se sinta agitado quando não a consegue facilmente e tente assegurar-se de sempre tê-la ao alcance. Você pode acabar roubando, gastando mais dinheiro do pode arcar ou assumindo comportamentos de risco para obtê-la.

Pessoas viciadas em uma substância ou comportamento acabam gastando cada vez mais tempo alimentando seu vício. Isso pode incluir um grande esforço para obter a substância viciante ou para ser capaz de realizar a atividade viciante, abandonar outras atividades para conseguir executá-la e precisar de tempo para se recuperar posteriormente. Não conseguir alimentar seu vício pode levar a uma série de sintomas desafiadores de abstinência, que variam de irritabilidade à incapacitação completa.

Se você é viciado em algo, geralmente:

  • Sente que precisa da substância regularmente
  • Considera-se incapaz de parar de tomá-la, mesmo sabendo que ela prejudica a sua saúde
  • Precisa ingerir maior quantidade da substância por vez ou com mais frequência para obter o mesmo efeito
  • Apresenta sintomas de abstinência, como agitação ou contrações incontroláveis, quando você tenta parar de tomá-la

Diagnóstico

Nem sempre é fácil identificar os sintomas do vício. Nem todo mundo apresenta os mesmos, e as pessoas viciadas em algo podem ser muito boas em dissimular.

Se você acha que está viciado, consulte o seu médico. Ele avaliará seu estado de saúde e, provavelmente, irá encaminhá-lo a um psiquiatra, psicólogo ou conselheiro licenciado em álcool e drogas para mais exames e controles.

Complicações

O vício pode levar a muitas complicações, dependendo do objeto de seu vício. Em geral, ele provoca o rompimento de relacionamentos, perda do empregos, dinheiro e imóveis, além de levar a muitos problemas de saúde.

A dependência de substâncias e de álcool também pode causar ou piorar distúrbios da saúde mental, como depressão e ansiedade, e causar problemas de saúde físicos, como insuficiência hepática e doenças cardíacas, ou doenças como o HIV, caso haja compartilhamento de agulhas infectadas.

Resumindo, o vício pode destruir vidas.

Causas

Quando você tem um vício, as ligações cerebrais mudam para fazer você desejar a substância. Embora na maioria das vezes isso não ocorra da noite para o dia, viciar-se pode ser um processo surpreendentemente rápido. No começo você sente-se no controle, decidindo como escolher quanto álcool beber ou quando buscar uma droga específica. Você gosta dos efeitos, mas pode parar quando quiser.

À medida que você continua a beber, usar drogas ou fumar, seu corpo gradualmente aumenta a tolerância aos efeitos, e portanto você precisa tomar mais e mais para obter a mesma resposta. Se você tentar parar, os sintomas de abstinência surgem. Algumas substâncias são muito mais viciantes que outras, como opioides, que provocam uma resposta viciante extremamente rápida.

Pesquisas mostram que existe um componente genético e ambiental no vício. Ter parentes de primeiro grau com dependência significa que você tem uma probabilidade muito maior de desenvolver um vício. Crescer em um ambiente onde predomina algum vício é outro fator de risco.

Existem muitas razões pelas quais você pode começar a tornar-se dependente de uma substância ou comportamento viciantes. Por exemplo, alguém com dependência de álcool pode começar a beber para aliviar a depressão ou a ansiedade. Alguém com dependência de opioides pode começar a tomar os medicamentos mediante receita médica após uma cirurgia, e alguém viciado em tabaco pode ter começado porque todos seus amigos fumavam.

Tratamento

O vício é uma condição tratável, não importa no que você seja viciado. O tratamento certo é diferente para cada pessoa, dependendo da química do seu cérebro, da sua saúde mental e física e do objeto de seu vício. Alguns dos princípios do tratamento bem-sucedido incluem:

  • Tratar o indivíduo e não apenas o abuso de drogas ou álcool.
  • Assumir um tratamento continuado por um longo período de tempo. Muitas pessoas param o tratamento precocemente, pensando que estão curadas, e depois retornam aos seus comportamentos viciantes.
  • Monitorar o programa de tratamento e alterá-lo para atender às necessidades de mudança do indivíduo.

O tratamento eficaz costuma ser uma combinação de medicamentos e terapias. As evidências sugerem que uma abordagem integrativa, combinando várias terapias, tende a levar a taxas mais altas de sucesso a longo prazo. Pessoas com abuso de álcool e substâncias muitas vezes precisam começar com a desintoxicação assistida. Este é um processo controlado que limpa as toxinas do corpo e ajuda a superar os sintomas de abstinência que geralmente ocorrem quando alguém deixa de ingerir substâncias viciantes. Sem medicação, os sintomas de abstinência podem ser tão graves que as pessoas tentam a todo custo retornar ao vício, podendo até se suicidar em resultado desse processo frustrado.

A terapia comportamental e o aconselhamento são vitais para o vício. Eles orientam o paciente a encontrar maneiras de lidar com seus desejos e fortalecem sua capacidade de resistir à urgência de voltar a comportamentos viciantes. A psicoterapia também pode ajudá-lo a lidar com quaisquer problemas subjacentes que o levaram a começar a consumir álcool, drogas ou a ter comportamentos viciantes.

No longo prazo, a terapia em grupo contínua pode ajudá-lo a resistir à tentação de retornar a substâncias e comportamentos viciantes em momentos mais tensos da vida. Grupos de autoajuda, como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos, ajudam a evitar sentimentos de vergonha e isolamento que podem levá-lo de volta ao vício. A sensação de não estar sozinho também é fundamental nesses casos.

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