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A Cannabis Pode Ajudar Pacientes com Endometriose?

por Emily Earlenbaugh, PhD

Feb 10, 2020

A cannabis pode fornecer alívio significativo para a endometriose, modulando e ativando o sistema endocanabinoide, um sistema que tem atuação relevante nessa condição clínica. 

Embora existam alguns tratamentos e cirurgias para tratar essa doença, eles nem sempre são eficazes para aliviar a dor muitas vezes intensa que acompanha a endometriose. Portanto, é vital encontrar opções para atender as mulheres que sofrem desse problema desafiador e doloroso. A cannabis é uma terapia potencial que está atualmente sendo pesquisada. 

Como a Cannabis Atua na Endometriose 

Para compreendermos como a cannabis atua na endometriose, primeiro precisamos entender como ela é afetada pelo sistema endocanabinoide. Esse sistema crucial do corpo humano é composto por receptores de endocanabinoides (chamados CB1 e CB2), endocanabinoides (substâncias químicas naturais no corpo humano que ativam ou modulam a atividade dos CB1 e CB2) e enzimas que os metabolizam e os eliminam do corpo. Esse sistema tem o papel de manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio de muitas de nossas funções vitais mais importantes. Modulando sono, fome, dor, ansiedade, náusea e metabolismo energético, o endocanabinoide é um sistema vital para a manutenção de nossa saúde. 

Embora esse sistema seja geralmente ativado por nossos próprios endocanabinoides, ele também pode ser estimulado por substâncias químicas da cannabis chamadas canabinoides, que funcionam de maneira semelhante aos nossos endocanabinoides naturais.

Como se vê, o sistema endocanabinoide também está envolvido na endometriose e na dor a ela associada. Os pesquisadores suspeitaram disso ao constatarem que as mulheres com endometriose relataram redução da dor ao utilizar cannabis. Os cientistas levantaram a hipótese específica de que o sistema endocanabinoide estaria envolvido no desenvolvimento da endometriose e na manifestação da respectiva dor. E por fim encontraram várias evidências de apoio à sua teoria. 

De fato, estudos revelaram recentemente que sobre o crescimento anormal desses tecidos brotam ramificações de fibras nervosas sensoriais e simpáticas, inervando-os e fazendo com que emanem dor. Essas fibras são ricas em receptores CB1 e, portanto, podem ser moduladas com endocanabinoides ou canabinoides da cannabis (que podem ativar o CB1). Não só as fibras e os crescimentos são ricos em CB1, mas também os neurônios dos quais essas fibras brotam. 

Pesquisadores explicam que isso sugere que o sistema endocanabinoide exerce um importante papel na progressão da endometriose e na germinação de fibras inervadas. 

Também podemos ver, em pesquisas sobre fertilidade, que níveis mais altos de anandamida (um endocanabinoide estimulante do CB1) na ovulação e níveis mais baixos na implantação são importante para uma gravidez bem-sucedida. Alterações na sinalização endocanabinoide podem até levar ao aborto e, assim, sabemos que o sistema endocanabinoide desempenha um papel importante no sistema reprodutor feminino.  

Em mulheres com endometriose, há também um aumento significativo nos níveis de endocanabinoides, juntamente com níveis reduzidos de receptores CB1, quando comparadas com aquelas saudáveis. Esse resultado sugere um ciclo de reações negativas na regulação da dor, o que pode prejudicar a capacidade do sistema endocanabinoide de controlá-la nas pacientes com endometriose. 

Essa evidência levou pesquisadores a descrever a endometriose como um problema de “deficiência de endocanabinoide”.

Estudos Médicos sobre Cannabis e Endometriose

Tudo isso dito, está claro que o sistema endocanabinoide desempenha um papel importante na endometriose. Mas isso significa que a cannabis pode ajudar a tratá-la? Para elucidar essa questão, precisamos considerar a pesquisa sobre a cannabis como forma de tratamento para a endometriose em seres humanos.

Obviamente, o uso de cannabis para tratar problemas ginecológicos não é novidade. Na verdade, a planta tem uma tradição antiga de ser empregada como remédio na obstetrícia e ginecologia. Ela foi usada historicamente para tratar doenças como dismenorreia, disúria, hiperêmese gravídica e sintomas da menopausa. E, até hoje, muitas mulheres relatam efeitos positivos do uso de cannabis na dor provocada pela endometriose. 

Ainda assim, existem muito poucos estudos (e nenhum do tipo clínico) que realmente apontam o impacto da cannabis na endometriose em humanos. Temos no entanto dois estudos recentes, baseados em pesquisas, que questionaram junto às mulheres que sofrem de endometriose como a cannabis atuava em seus casos. 

O primeiro estudo observou mulheres com endometriose, com idade entre 18 e 45 anos, residentes na Austrália. O estudo levantou os métodos de autocontrole usados por elas para lidar com os sintomas da endometriose. Além disso, fizeram perguntas sobre mudanças nos sintomas ou no uso de medicamentos, custos e eventos adversos. 76% das entrevistadas relataram usar técnicas de autocontrole, e 13%,  cannabis. Aquelas que a consumiam relataram altos níveis de redução da dor (7,6 de 10), com 56% delas também relatando que foram capazes de reduzir pelo menos à metade o uso de medicamentos farmacêuticos. Essas mulheres relataram que suas principais melhorias ocorreram com o sono, náusea e vômito, sendo que os efeitos adversos foram relativamente raros (10%) e menos impactantes. 

Os autores deste estudo argumentam que esses resultados justificam uma sequência de novos estudos clínicos para confirmar o potencial da cannabis no tratamento da endometriose. 

Em uma outra pesquisa de 2019, as pacientes responderam a perguntas sobre sua experiência com cannabis e CBD no tratamento da endometriose e dor pélvica. A maioria relatou que o resultado foi “moderado” ou “muito eficaz”. 

Endometriose e CBD

Na mesma pesquisa de 2019, na qual foi relatado que a cannabis fora muito ou moderadamente eficaz em 75,9% dos casos, os pesquisadores também perguntaram sobre o CBD. Cerca de um terço das entrevistadas relatou ter experimentado o CBD, com mais da metade delas afirmando ter sido ele muito ou moderadamente eficaz. 

Entre os dois grupos participantes, houve mais probabilidade de a cannabis ser relatada como muito eficaz, enquanto com relação ao CBD o mais provável foi “ser moderadamente eficaz”.

Este estudo fornece mais evidências da utilidade da cannabis para a endometriose e mostra que já é um tratamento comum que vem sendo usado. Também lança luz sobre a eficácia na comparação entre o CBD e a cannabis de planta inteira, sugerindo que a segunda tende a ser mais eficaz do que o CBD isolado. 

Efeitos Colaterais 

Embora não existam muitas pesquisas clínicas sobre o uso de cannabis para o alívio da endometriose, nos estudos realizados os efeitos adversos foram relativamente raros (afetando cerca de 10% das pacientes), e geralmente de pouca importância. Em geral, os efeitos colaterais da cannabis incluem sintomas como dificuldades leves de concentração e memória, coordenação prejudicada, aumento do apetite, náusea, coração acelerado, tontura, boca seca e fadiga. 

Além disso, a cannabis pode interagir com alguns medicamentos de maneira prejudicial, diminuindo sua metabolização e, consequentemente, forçando a paciente a aumentar a quantidade inserida na corrente sanguínea. Isso pode gerar problemas de dosagem excessiva de certos medicamentos. Aquelas que tomam medicamentos adicionais devem sempre consultar um médico antes de iniciar o uso de cannabis para garantir que não haja interação medicamentosa.

Isenção de Responsabilidade

O conteúdo do site The Cannigma tem fins puramente informativos. Não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um médico profissional experiente com conhecimento em cannabis antes de iniciar um tratamento.

Sobre a Endometriose

Visão Geral

A endometriose é um distúrbio ginecológico crônico e doloroso. Ela ocorre quando o endométrio, que é o tecido que reveste o útero, cresce em outras partes do corpo, geralmente nos órgãos pélvicos como ovários, trompas de falópio e sobre o tecido que reveste a pelve. 

Durante o ciclo menstrual regular, o tecido endometrial fica mais espesso e depois se decompõe e sangra, causando a menstruação. O problema é que o tecido endometrial em outras partes do corpo não tem como ser eliminado e permanece retiro, causando dor e irritação. 

A endometriose é bastante comum, afetando cerca de 10% das mulheres em todo o mundo, ou seja, cerca de 176 milhões de pessoas. Geralmente surge entre os 25 e 40 anos, mas pode ter início assim que a jovem começa a menstruar, podendo se prolongar até a menopausa. Ocasionalmente, o impacto das cicatrizes da endometriose permanece mesmo depois da menopausa.

É uma doença crônica que afeta seriamente a vida. No entanto, existem tratamentos capazes de aliviar os sintomas e reduzir suas consequências, como a infertilidade.

Sintomas

O sintoma mais comum da endometriose é a dor pélvica, principalmente durante a menstruação. No entanto, eles podem variar. Algumas mulheres sentem muita dor, enquanto outras mal a percebem. A dor da endometriose pode piorar com o tempo. 

A intensidade da dor nem sempre está relacionada ao estágio da endometriose. Algumas mulheres sentem dor extrema, mas sofrem de um tipo leve de endometriose; já outras, com endometriose intensa, sentem pouca dor.

Outros sintomas da endometriose incluem:

  • Períodos dolorosos (dismenorreia), com a dor começando alguns dias antes do período menstrual. Você pode sentir câimbras no abdômen e na região lombar.
  • Dor durante ou após o sexo.
  • Dor durante os movimentos intestinais ou ao urinar, principalmente durante o período menstrual.
  • Diarreia, constipação, inchaço, náusea e/ou sensação de cansaço excessivo, principalmente durante o período menstrual.
  • Infertilidade.
  • Menstruação extraordinariamente excessiva.

Complicações

A endometriose geralmente causa aderências, que são placas pegajosas de tecido endometrial que unem órgãos, e cistos cheios de líquido, como uma “bolha de sangue”, nos ovários. Esses cistos e aderências costumam causar muita dor. 

A endometriose é uma das causas mais comuns de infertilidade. Cerca de 24 a 50% das mulheres que experimentam infertilidade têm endometriose. Às vezes, uma cirurgia de remoção dos cistos, aderências e tecido cicatricial pode restaurar a fertilidade. 

A dor e o desconforto da endometriose geralmente levam à depressão.

Diagnóstico

A endometriose ainda costuma ser subdiagnosticada, porque muitas vezes é observada como uma dor “normal” do período menstrual. Por isso, é importante ir a um ginecologista e falar sobre os sintomas. Você deve esperar que seu médico realize um exame físico completo, inclusive pélvico. 

Para confirmar o diagnóstico, o médico solicitará uma histeroscopia. Este é um procedimento cirúrgico menor e realizado sob anestesia. O médico insere um tubo fino, com uma câmera no final (laparoscópio), através de uma pequena incisão no abdômen, para verificar o tamanho, extensão e localização de cistos, aderências e crescimentos endometriais.

Além de diagnosticar a endometriose, seu ginecologista tentará classificar seu estágio. Eles variam do estágio 1, considerado mínimo, ao estágio 4, classificado como grave. O estágio da endometriose depende da:

  • Até onde o tecido se espalhou pelo corpo
  • Quais estruturas pélvicas estão envolvidas
  • A extensão das aderências na cavidade pélvica
  • A quantidade de bloqueio nas trompas de falópio

Causas

Não está claro o que causa endometriose, mas existem algumas teorias. Elas incluem:

  • Menstruação retrógrada, o que significa que parte do tecido menstrual recua através das trompas de falópio e instala-se em outro local da cavidade pélvica. 
  • O tecido endometrial se desloca através do sangue e do sistema linfático, e instaura-se em outras partes do corpo. 
  • Hormônios ou fatores imunológicos fazem com que as células locais do abdômen, órgãos reprodutivos ou de qualquer parte do corpo se transformem em células endometriais.
  • As células endometriais são depositadas acidentalmente na parede abdominal durante uma cirurgia, como numa histerectomia ou cesariana.
  • Um distúrbio no sistema imunológico impede que o corpo reconheça e destrua o tecido endometrial que cresce fora do útero.

Fatores de risco para o desenvolvimento de endometriose incluem:

  • Ter uma parente próxima com endometriose
  • Menstruação excessiva
  • Ciclos menstruais curtos de menos de 27 dias
  • Dar à luz pela primeira vez com mais de 30 anos
  • Anormalidades do útero
  • Origem caucasiana

Tratamento

Não há cura para a endometriose, mas existem tratamentos que podem reduzir a dor e tratar a infertilidade. O seu médico considerará elementos como sua dor, se você está tentando engravidar, sua saúde geral e preferência por diferentes medicamentos ou procedimentos, a fim de criar um programa de tratamento. 

Se você sentir pouca ou nenhuma dor, seu médico provavalmente recomendará “permanecer sob observação” para checar se há piora. Em geral, o médico começará com tratamentos minimamente invasivos e, somente se eles falharem, passará para outros mais pesados, como cirurgia. 

Medicação 

A medicação para a dor é geralmente a primeira linha de tratamento para a endometriose. Podem ser prescritos remédios como ibuprofeno ou naproxeno sódico.

Se você não está tentando engravidar, pode receber a prescrição de uma terapia hormonal. Ela pode reduzir ou eliminar completamente a dor da endometriose, retardar o crescimento do tecido endometrial e impedir a formação de novas áreas. A terapia hormonal inclui:

  • Contraceptivos hormonais, como pílulas anticoncepcionais, adesivos e anéis vaginais: combinam estrogênio e progestina para impedir a ovulação e reduzir o fluxo menstrual.
  • Progestinas podem ser pílulas, dispositivos intrauterinos, injeções ou implantes. Elas podem interromper sua menstruação e impedir o crescimento de tecido endometrial.
  • Agonistas e antagonistas dos hormônios liberadores de gonadotrofina diminuem os níveis de estrogênio para impedir a menstruação, criando uma “menopausa medicinal”.
  • Danazol é um derivado da testosterona que reduz a quantidade de estrogênio no seu corpo.

Cirurgia

Às vezes, a melhor maneira de tratar a endometriose é através de uma cirurgia minimamente invasiva. Os ginecologistas podem usar uma laparoscopia para remover pequenos crescimentos endometriais dolorosos. 

A laparotomia é uma cirurgia mais extensa para remover o máximo de tecido endometrial possível, sem danificar o tecido saudável.

Se você não notar nenhuma melhora com nenhum dos tratamentos mencionados acima, seu médico poderá recomendar uma histerectomia completa para remover o útero e, possivelmente, também os ovários. No entanto, isso elimina qualquer opção de gravidez e pode ter um impacto sério na sua saúde, sendo por isso usado apenas como último recurso. 

Terapias Alternativas

Algumas mulheres acham que terapias alternativas como medicina chinesa, acupuntura, terapia imunológica e alterações da dieta podem ajudar a aliviar a dor causada pela endometriose.

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