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A Cannabis Pode Tratar a Doença de Huntington?

por Emily Earlenbaugh, PhD.

Feb 16, 2020

Visão Geral 

Embora as pesquisas ainda estejam em fase inicial, alguns estudos apresentaram evidências de que a cannabis pode ser eficaz no tratamento de pacientes que sofrem da Doença de Huntington. Esses estudos sugerem que a planta pode ajudar atuando como neuroprotetor, além de reduzir sintomas como irritabilidade, comportamento imoderado, movimentos descontrolados e hipersalivação. A cannabis também pode ajudar a melhorar a capacidade cognitiva do paciente, o controle dos movimentos e a coordenação ao caminhar. 

Como a Cannabis Atua na Doença de Huntington

O sistema endocanabinoide (SE) existe em todos os vertebrados e ajuda a regular funções elementares como sono, dor e apetite. O corpo humano produz seus próprios canabinoides, que modulam e ativam suas várias funções. No entanto, como o nome sugere, o sistema endocanabinoide também pode ser modulado e ativado por canabinoides encontrados na cannabis, conhecidos como fitocanabinoides. Como todo esse sistema só foi descoberto nos últimos 30 anos, os cientistas ainda têm muito o que aprender sobre as inúmeras maneiras pelas quais essa planta atua sobre o organismo humano.

Com relação à Doença de Huntington, os cientistas descobriram que o SE desempenha um papel importante na progressão da doença. Alguns deles inclusive sugerem que o desequilíbrio ou a deficiência do sistema endocanabinoide poderia ser uma das causas desse mal.

Diferente do que se poderia imaginar, existem várias maneiras pelas quais as deficiências do sistema endocanabinoide foram associadas à Doença de Huntington

Por alguma razão, vemos diferenças em importantes áreas do cérebro dos pacientes com Huntington em comparação com a população em geral. Uma área importante são os gânglios basais, uma parte do cérebro relacionada ao movimento. Essa parte geralmente é rica em endocanabinoides, bem como em receptores ativados por eles e em enzimas que os decompõem. Porém, em estudos póstumos de pacientes com Doença de Huntington, a maioria deles apresentou uma perda maciça de receptores CB1 (um dos principais receptores do sistema endocanabinoide) nos gânglios basais. 

Outros estudos, tanto em animais como em seres humanos, também mostraram a perda desse receptor em outras áreas do cérebro relacionadas à Doença de Huntington. Alguns até sugerem que a redução no mRNA desse receptor (uma molécula que transmite informações genéticas) é o primeiro sinal da Doença de Huntington e uma marca registrada de seus estágios iniciais. Estudos em animais associaram a perda de receptores CB1 ao agravamento na função motora e ao desenvolvimento fisiológico dessa doença. 

Nos estágios tardios da doença, também observamos níveis aumentados de CB2, outro importante receptor do sistema endocanabinoide. 

Além disso, estudos em animais mostram alterações significativas na quantidade de endocanabinoides essenciais como anandamida e 2-AG no cérebro de pacientes que sofrem da Doença de Huntington, com níveis reduzidos em várias partes do cérebro à medida em que a doença progride, seguidos por um aumento da anandamida no córtex durante seus estágios finais. 

Geralmente, essas descobertas sugerem que existem comprometimentos específicos de regiões e estágios do sistema endocanabinoide dos que sofrem da Doença de Huntington. Os pesquisadores sugerem que tanto os medicamentos que ativam o CB1 ou o CB2 quanto aqueles que os inibem podem ser potencialmente úteis no tratamento dessa doença. No entanto, esta afirmação ainda requer mais pesquisas.

Estudos Médicos Sobre a Doença de Huntington e a Cannabis

Embora os dados sobre os efeitos do sistema endocanabinoide nessa doença apontem para a possibilidade de que a cannabis possa ajudar a minimizar esse problema de saúde degenerativo, precisamos examinar a pesquisa direta sobre o uso de canabinoides na Doença de Huntington para entender quando e como isso pode ser eficaz. Infelizmente, as pesquisas ainda estão em fase inicial e seus resultados são contraditórios em alguns momentos.

Para começar, estudos animais sugerem que o tratamento com THC, o canabinoide mais comum na planta de cannabis, pode ajudar na Doença de Huntington atuando como neuroprotetor e potencialmente retardando sua progressão. 

Alguns estudos de caso também apóiam essa hipótese. Em um estudo de caso de 2006, uma paciente com a Doença de Huntington apresentou melhoras significativas utilizando a planta e, mais tarde, a nabilona (uma versão sintética do THC). Seus cuidadores descobriram que o uso desses canabinoides melhorava seu humor, reduzindo a irritabilidade, o comportamento imoderado e as explosões de raiva. A paciente tornou-se mais calma e mais paciente, e também percebeu-se a melhora do controle dos seus movimentos, com menos “coreia” (movimentos involuntários, parecidos com uma dança, comuns à Doença de Huntington).

Esses resultados positivos de estudos de caso e pesquisas com animais impulsionaram cientistas para os estudos da cannabis para a Doença de Huntington; alguns destes também acabaram apresentaram resultados positivos. 

Um estudo de 2009 sobre a cannabis e a Doença de Huntington mostrou que os pacientes tratados com nabilona apresentavam melhora moderada nas habilidades motoras, coreia e cognição. Depois, um estudo de 2012 analisou especificamente o tratamento da coreia com cannabis e concluiu que a planta promoveu uma melhora moderada do quadro. Em ambos os casos, os cientistas utilizaram doses baixas, o que levou outros pesquisadores a afirmarem que esses estudos eram insuficientes para demonstrar algo além do que foi constatado: uma melhora moderada.  

Em um estudo de 2018, os pesquisadores revisaram a literatura anterior sobre o tema e descobriram que o uso de cannabis poderia levar à melhora dos sintomas motores, ganho de peso (um resultado desejado nesse caso), comportamento e humor. Eles descobriram que aqueles que usavam a planta tornaram-se menos irritáveis e apáticos, e apresentavam menor hipersalivação. 

Infelizmente, nem todas as pesquisas sobre a cannabis e a Doença de Huntington apresentaram resultados positivos. Na verdade, alguns ensaios clínicos sugeriram que a cannabis não atua sobre esse quadro clínico. Por exemplo, em um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, de 2016, controlado por placebo, usando o Sativex (um extrato da planta contendo THC e CBD), não foram encontradas diferenças significativas nas medições motoras, cognitivas, de habilidades comportamentais e funcionais entre aqueles que tomaram o Sativex e aqueles que ingeriram placebo. Além disso, não foram observadas alterações em importantes biomarcadores da doença. Mesmo assim, os autores deste estudo recomendaram sua replicação com doses mais altas de cannabis. 

Em outros casos, pesquisas mostraram que a cannabis é prejudicial à doença. Estudos animais demonstraram o potencial do THC de  exacerbar alguns aspectos da doença e, em um estudo clínico não controlado, uma dose única de nabilona provocou o aumento da coreia em um paciente testado. 

Ainda assim, a maioria das pesquisas leva os cientistas a acreditar na utilização da cannabis e, portanto, seu potencial para o tratamento da doença continuará a ser investigado. 

CBD e a Doença de Huntington  

Embora a maioria das pesquisas sobre a cannabis se concentre em variedades da planta ricas em THC, ou medicamentos à base de THC, algumas também analisaram se um outro componente da planta, o CBD, poderia ser útil quando usado separadamente. E há razões para acreditar que ele pode de fato ajudar na Doença de Huntington. 

Em 2017, a Organização Mundial de Saúde relatou que o CBD pode desempenhar um papel no tratamento da Doença de Huntington, e uma revisão de 2018 da literatura descobriu que o CBD apresenta o potencial de ajudar nos distúrbios de movimentos, incluindo os provocados por esse mal. 

Em estudos animais, o CBD foi capaz de reverter a perda neuronal pela toxicidade na Doença de Huntington. No entanto, em alguns ensaios clínicos controlados, os pacientes tratados com CBD não apresentaram melhoras. Mesmo assim, alguns pesquisadores sugerem que esses experimentos precisam ser refeitos com doses mais altas. 

Efeitos Colaterais 

Em estudos sobre o uso de cannabis na Doença de Huntington, os pacientes experimentaram efeitos colaterais como náusea, aumento da fraqueza, alterações comportamentais ou de humor, ideação suicida, alucinações, tontura, fadiga e sensação de intoxicação. Esses estudos usaram principalmente doses baixas de cannabis. Aqueles que tomaram doses mais altas, que incluem THC, também experimentam ansiedade e, em casos raros, psicose. 

Isenção de Responsabilidade

O conteúdo do site The Cannigma tem fins puramente informativos. Não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um médico profissional experiente com conhecimento em cannabis antes de iniciar um tratamento.

Sobre a Doença de Huntington

Visão Geral

A Doença de Huntington é um distúrbio cerebral progressivo que leva o nome do Dr. George Huntington, o médico que a classificou pela primeira vez no final do século XIX. Huntington é uma doença herdada, causada por um gene defeituoso que faz com que as células nervosas de partes do cérebro se quebrem com o tempo. Isso leva ao desenvolvimento de dificuldades em caminhar, falar e engolir, a movimentos bruscos involuntários, ao declínio cognitivo e mudanças de personalidade. 

A maioria das pessoas com a Doença de Huntington começa a apresentar os sintomas entre os 30 e 40 anos, mas a enfermidade também pode se desenvolver em outras fases da vida. Quando a doença se desenvolve antes dos 20 anos, é denominada Doença de Huntington Juvenil, a qual apresenta sintomas adicionais e tende a progredir mais rapidamente do que sua versão adulta. 

A Doença de Huntington é bastante rara. Acredita-se que tenha se originado no norte da Europa, sendo bem mais comum no Reino Unido e entre pessoas com descendência proveniente dessa região. Na Europa Ocidental e nos EUA, aproximadamente de 5 a 10 em cada 100.000 pessoas sofrem do mal, em comparação com menos de 1 em cada 100.000 pessoas na Ásia. No entanto, existem alguns bolsões geográficos onde a Doença de Huntington é mais comum. 

Não há cura para ela nem tampouco formas de retardar ou reverter o declínio gradual que provoca, embora o tratamento possa ajudar no controle dos sintomas. Com o tempo, a fraqueza física leva à pneumonia, insuficiência cardíaca ou outras complicações secundárias fatais. A maioria das pessoas com Huntington vive de 15 a 20 anos após o diagnóstico, reduzindo-se para 10 a 15 anos nas pessoas com a versão juvenil da enfermidade.

Sintomas

Os primeiros sintomas da Doença de Huntington são bastante leves e podem ser difíceis de detectar, mas se tornam mais graves e evidentes à medida em que ela progride. Indivíduos diferentes podem ter sintomas distintos. Por vezes, os pacientes apresentam sintomas concentrados: enquanto um pode ter sua fala especialmente afetada, outro pode apresentar mais dificuldade no caminhar.  

O sintoma mais comum e precoce de Huntington é geralmente a depressão, a qual se deve a alterações na função cerebral por causa de danos às células cerebrais. Outros sinais iniciais de Huntington incluem:

  • Irritabilidade
  • Movimentos curtos, bruscos e involuntários
  • Má coordenação
  • Dificuldade em aprender novas informações
  • Dificuldades na tomada de decisões

 

À medida em que a doença progride, outros sintomas aparecem. Esses incluem:

  • Movimentos bruscos ou contorções involuntários, chamados de “coreia”
  • Músculos anormalmente tensos ou contraídos, o que é chamado de distonia
  • Movimentos oculares lentos ou anormais
  • Dificuldade em falar ou engolir
  • Movimentos motores prejudicados, como ao caminhar, se equilibrar e escrever
  • Dificuldade em se concentrar e se organizar
  • Comportamento impulsivo e de risco
  • Falta de autoconsciência
  • Dificuldade em processar pensamentos, aprender novas informações e encontrar palavras

 

As pessoas que sofrem da Doença de Huntington também tendem a desenvolver distúrbios psiquiátricos como ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, mania e transtorno bipolar. Elas também podem sofrer de alucinações e delírios, apresentar sintomas de agressão, agitação ou raiva, e, frequentemente, carecem de energia, retraem-se socialmente e têm dificuldades para dormir. Também podem sofrer mudanças de personalidade.  

A Doença de Huntington Juvenil apresenta sintomas adicionais, que incluem:

  • Movimentos lentos e desajeitados
  • Quedas frequentes
  • Músculos tensos e rígidos que afetam o caminhar
  • Fala arrastada e hiper-salivação
  • Declínio repentino e significativo no desempenho estudantil

 

Cerca de 30-50% das crianças com Doença de Huntington Juvenil também sofrem de convulsões. 

Diagnóstico

É fácil confirmar o diagnóstico dessa doença. Ela é causada por defeitos em um gene específico identificado em 1993. Portanto, os médicos solicitam um exame de sangue para detectar o gene defeituoso da proteína de Huntington. Isso pode confirmar a enfermidade naqueles que já apresentam sintomas e também e nos que ainda não chegaram a essa etapa. Se um dos seus pais tiver a doença de Huntington ou apresentar resultado positivo em um teste do gene defeituoso, recomenda-se obter aconselhamento genético. 

O teste genético também pode ser importante em termos de planejamento para o futuro, porque um resultado positivo deste gene significa que a doença fatalmente se desenvolverá. O planejamento familiar também é importante, evitando a possibilidade de transmitir a doença para descendentes. 

Os sintomas da Doença de Huntington são muito semelhantes aos causados por vários outros distúrbios muito mais comuns, incluindo o Mal de Alzheimer, tumores ou doenças neurológicas. Por isso é importante procurar um médico que levante um histórico completo de saúde, ouça atentamente os sintomas relatados e observe seus movimentos, fala e comportamento. Outros exames de sangue e de imagens podem ser realizados antes da conclusão médica. 

Causas

A Doença de Huntington é causada pelo defeito conhecido em um único gene específico. É chamado de distúrbio autossômico dominante, o que significa que alguém que herda apenas uma cópia do gene defeituoso desenvolverá Huntington. Afeta homens e mulheres igualmente. Se alguém tem um dos pais com a Doença de Huntington ou com o gene defeituoso, há 50% de chances de que cada filho o herde.

Tratamento 

Não há cura para a Doença de Huntington e não há maneira de retardar ou interromper as mudanças que provoca no cérebro. Um tratamento combinando medicamentos orais com vários tipos de terapia pode ajudar a lidar com o impacto dos sintomas da doença, especialmente no alívio dos elementos psiquiátricos, como a depressão, e no controle de distúrbios do movimento, como a coreia.

Medicação

 

Existem 2 tipos principais de medicamentos prescritos para tratar a coreia:

  • Antipsicóticos atípicos (de próxima geração), como olanzapina, haloperidol e clorpromazina, têm o efeito colateral de suprimir movimentos involuntários. No entanto, eles podem piorar a distonia e a rigidez muscular.
  • Tetrabenazina, especificamente aprovada para o tratamento da Doença de Huntington, a qual também pode piorar ou desencadear depressão e outros problemas psiquiátricos.

 

Outros medicamentos às vezes prescritos para controlar distúrbios do movimento em pacientes com Huntington incluem amantadina, levetiracetam e clonazepam.

Os médicos avaliarão o estado emocional e mental do paciente antes de escolher quais medicamentos prescrever para transtornos psiquiátricos. Entre os mais comuns estão:

  • Antipsicóticos atípicos como quetiapina, risperidona e olanzapina, para cólera severa e comportamento ameaçador.
  • Antidepressivos como citalopram, escitalopram, fluoxetina e sertralina, para depressão e transtorno obsessivo-compulsivo.
  • Drogas estabilizadoras do humor como valproato, carbamazepina e lamotrigina para transtorno bipolar.

Terapia 

 

Para ajudar a aliviar os sintomas da Doença de Huntington, recomenda-se o uso de vários tipos de terapia aliados aos medicamentos.

A psicoterapia, também chamada de terapia através da palavra, pode ajudar em problemas comportamentais, na autoconsciência e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento.

A terapia da fala (logopedia) contribui para o fortalecimento dos músculos usados para falar, comer e engolir, ensina às pessoas com Doença de Huntington outras maneiras de falar com mais clareza e ajuda a encontrar dispositivos de comunicação quando a pessoa não consegue mais se comunicar verbalmente.

A fisioterapia orienta as pessoas com Doença de Huntington a realizar exercícios suaves de equilíbrio, flexibilidade, força e coordenação, para que corram menos riscos de cair e possam permanecer móveis por mais tempo. Os fisioterapeutas também ensinam às pessoas enfermas como melhorar sua postura para reduzir problemas de movimento.

Os terapeutas ocupacionais ajudam os pacientes com a Doença de Huntington, bem como suas famílias e cuidadores, a encontrar os dispositivos de assistência mais adequados, como equipamentos para ajudar no banho e no vestir-se, andadores e cadeiras de rodas, e utensílios adaptados para comer e beber.

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